A RACIONALIDADE CIENTÍFICA MODERNA
Embora o período que se estende da segunda metade do século XVIII a totalidade do século XIX seja prioritário para este estudo, é preciso salientar que o que se denomina aqui de racionalidade cientifica moderna é contemporânea, em sua constituição, do Renascimento na sua fase avançada, isto é, do século XVI. Além disso, como processo histórico de decifração, explicação e transformação da realidade, principalmente daquilo que se chama de Natureza, esta racionalidade ainda hoje se constrói desdobrando-se sempre mais complexas, por um lado, e mais avançadas, de “ponta”, por outro.
De fato, o período compreendido pelo século XVI até o XVII, que pensadores e analistas sociais de ciência chamam de período de “revolução cientifica” se enraíza nessa grande época de ruptura de visão e organização de mundo expresso no Renascimento, que se propaga desde o inicio do século XVI na Italia, com a literatura (Dante, Petrarca, Bocacio), até o século XVI, nas artes plásticas, na musica, nas ciências, na tecnologia, na cosmologia, na filosofia.
O renascimento é, ao mesmo tempo uma época de modificação de costumes e de ideias, e uma serie de momentos inaugurais na criação artística, filosófica, cientifica e tecnológica, que tem uma ressonância progressiva, a partir de centros urbanos de irradiação, para todo o mundo conhecido (O “Velho Mundo”). Essa ressonância produz uma serie de mudanças profundas no comportamento politico, econômico e cultural da Europa, cujos efeitos de mutação se fizeram sentir ate o século XVIII, apesar das reações politico-religiosas de conservação, de repressão, tão bem ilustradas pelos tribunais religiosos etc., presentes em todo o período, e descritas pelos historiadores.
Emerge neste momento na historia, em diversos campos da atividade social, a representação do individuo como força criativa independente, como sujeito de mudança, pessoal e social. Nada mais compreensível que linguagens e teorias, como praticas sociais, estivessem, em totós os domínios, fortemente impregnados de um antropocentrismo humanista. O antropocentrismo renascentista é prático, conquistador, colonizador. Assinala uma cisão não apenas entre “ordem divina” e “ordem natural”. Separam-se Deus, homem e natureza. O homem é o herdeiro do espólio do “reino natural”, legado da Idade Média, e deve entrar na posse desse reino. Prometeu libertou-se, afinal.
Esta atitude antropocêntrica ativa que caracteriza o Renascimento, humanista por um lado , “naturalista”, por outro, é um primeiro rasgo da racionalidade moderna, um primeiro traço constitutivo discernível. Antropocentrismo que valorizam acima de tudo as iniciativas do gênero humano - (individuais, coletivas) de conhecimento do mundo natural, com a finalidade de desvendá-lo. Trata-se de extrair, com aplicação, diligencia e presteza, os segredos deste mundo. É provável, neste sentido que certas imagens e metáforas ainda hoje aplicadas a natureza, tenham sua origem neste período, e correspondam a um conjunto de representações sociais sobre “mundo natural” e Natureza”.
A existência objetiva e independente da natureza face ao mundo humano é, desta forma, condição epistemológica e ontológica para que o homem possa conhece-la e moldá-la, para que coloque sobre o reino da natureza o selo de sua ordem. a ordem da Razão. Vale acentuar, nesse sentido, a extensa e profunda dessacralização da vida, ou do cosmo, considerado como totalidade, abrangendo da origem dos astros a ordem dos elementos, da matéria aos seus compostos “elementais”, que progressivamente se desenvolverá na idade moderna. Dessacralização que nos séculos XVII e XVIII atingirá a vida huamana, através da dissecação dos cadáveres, desdivinizando-se, assim, o corpo do homem, paulatinamente entregue a ordem da racionalidade médica.
Descobrir a ordem oculta da natureza não significa contemplar, para maior gloria de Deus e iluminação do espirito humano, uma criação estabelecida para eternidade. Significa, ao contrario, recriar continuamente, através da busca de evidencias empíricas e de significados racionais que se encaixam uns nos outros, uma ordem de sentidos ou conjuntos de ordens de sentidos, que se constroem como um quebra-cabeça. A busca sistemática de ordens de sentido fundamenta-se, com a formação da racionalidade moderna, num novo modo de produzir verdades, baseado não apenas na operação logica, no raciocínio que infere e deduz, mas também na inteligência como capacidade de intuir.
De atitude de julgamento pragmático e critica em reação ao saber constituído, e da construção artesanal de métodos na produção de novos saberes, nasce o experimentalismo, um dos traços constitutivos característicos de novo modo de produção de enunciados de verdades, o método cientifico moderno. Experimentalismo que é, ao mesmo tempo, exploratório, na medida em que busca explicações novas para coisas e eventos já clarificados e explicados pela antiga ordem do saber, mas cuja explicação é julgada insuficiente ou errônea, e na medida em que propõe novas ordens de significados para esses eventos e dados, experimentando novos modelos de observação, construindo engenhos e autômatos, elaborando linguagens, das quais afirma-se como a amis importante a matemática, linguagens capazes de expor eventos, de fazê-los falar a linguagem da razão.
A natureza desdivinizada é dissociada ao mesmo tempo do sagrado e do humano, é colocada na objetividade, uma objetividade material. Esta razão material é coisificada: torna-se objeto, e a razão torna-se sujeitos do conhecimento. A razão torna-se, assim, condição fundamental de apropriação do objeto pelo sujeito, de sua sujeição. Mas trata-se aqui de uma razão instrumentada pela observação repetida, repertoriada, tecnificada. Uma razão demiúrgica, construtora.
Certamente a época renascentista é irredutível a modernidade cientifica. Neste sentido, não se pode reduzir as representações sociais e as concepções de natureza, homem, razão e sujeito da época, as da totalidade da racionalidade cientifica moderna. O sensualismo presente na plastificidade da pintura, da escultura, da arquitetura; a busca sistemática da beleza como fim da existência; a valorização do homem como portador de verdades universais e amigo da Verdade (“filósofo”), a afirmação da superioridade ética de costumes hedonistas, na literatura, no teatro, na musica, impedem que se identifique a visão nacionalizadora do mundo que se esta estruturando nas ciências nascentes a totalidade da cultura renascentista.
A natureza é um átomo, corpúsculo, finitude incomensurável de elementos. Mas é também abstração material que pode ser expressa numa grande equação, pois é mensurável como macrocosmo. Tal é o desejo que anima as ciências naturais linguagem unificada a extrema diversidade das peças que compõem o grande engenho natural. Para Alencar esse apaixonado ideal de abstração, sempre recuso no tempo, para satisfazer essa grande vontade de conhecimento, um único caminho: o método cientifico. Na racionalidade moderna só há síntese epistemológica na linguagem da razão, no método cientifico.
A história da racionalidade moderna pode ser vista também como a história de uma paixão negada. A paixão do conhecimento científico como única forma legitima de produção da verdade cientifica como única forma legitima de produção de verdades sobre a natureza. A paixão pela “natureza-objeto”, paixão que se revela na busca persistente do desvelamento e da apropriação, iniciada da idade moderna com o Renascimento, e que encontra sua plena eclosão nas ciências naturais modernas. Essa natureza-objeto de conhecimento é criatura da Razão moderna.
Ela é fundamental condição de classificação e intervenção, de ordenação e de subjugação da vida. Da vida “elementar”, atômico, primeiramente; em seguida, da vida vegetal e animal; finalmente da vida humana enquanto humana, isto é, naquilo em que é irredutível a Natureza vista como Material.
REFERÊNCIA:
LUIZ, Madel T. Natureza racional, social; razão médica e racionalidade científica moderna – Rio de Janeiro: Campus, 1988