sexta-feira, 18 de novembro de 2011

sociedade em movimento: traços e aparência

Mural, Dragão do Mar. Fortaleza- CE (imagem: arquivo pessoal)
                   
      O que pensar de uma placa de boas vindas, de uma pequena cidade do interior cearense, “Bem vindo a Várzea Alegre, terra do Padre Vieira protetor do jumento”? Para alguns pode ser estranho, incomum, um tanto singular ou simplesmente patético. O que torna por vez irredutível de significados, encontra sua lógica no imaginário dos sujeitos que vivenciam essa realidade.
      Luiz Gonzaga é tido como um dos maiores símbolos da música nordestina. Suas cifras perpassam a fome e práticas de vida de um povo simples, que luta e tenta sobreviver os causos de uma vida miserável no sertão. Em sua música, “Apologia ao jumento”, é possível entender um pouco da importância dada a Padre Vieira na defesa do pobre animal. E bem mais do que isso evidenciar uma cultura, que passa despercebida a ótica do preconceito.
       No mundo contemporâneo as cidades contrastam significativamente e, a percepção fundamental se dar nas conjunturas e estruturas politicas, econômicas e sociais. Por vez, o que se qualifica é certa heterogeneidade do pensamento nas grandes cidades e uma homogeneidade das ideias nas pequenas. O que proe-se nesse dialogo, é uma reflexão sobre os choques culturais e um processo de relativização do mesmo, que acabam por individualizar as categorias sociais e caracterizar as mentalidades de forma mais ampla.
      As pichações nas cidades metropolitanas podem ser consumidas como um estranhamento e também como um valor, que encontra sua lógica, a um grito sobre o processo de urbanização. A massificação de pessoas, a eterna escatologia das ideias, tende a sobrepor novos padrões de vida a antigos valores. O que seria de mais específico nos traços que delineiam muros, postes e em última instância que destroem patrimônios públicos? Arte ou inconsequência? Em Fortaleza, capital do Ceará, é tangível essa percepção. Existem locais inimagináveis com pichações, e a resposta dos possíveis porquês, dada pela população local, é simples: ação de facções que tendem a legitimar-se e mapear espaços com seus signos.
     O que implicaria o estranhamento? Nada mais que o modo como é manipulado cada cultura, deixando de lado as ordens que verticalizam as excentricidades. “Sabemos que nenhuma sociedade é efetivamente simples ou homogenia. Mesmo nas de menor escala, encontra-se alguma diferenciação, seja de natureza sociológica, seja a nível dos universos simbólicos” (VELHO, 2003 p.44).  


REFERÊNCIA

VELHO, Gilberto. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

sábado, 5 de novembro de 2011

O Sanduiche

Dica de curta, ficção produzida por Jorge Fortuda.

"Os últimos momentos de um casal, a hora da separação. O fim de alguma coisa pode ser o começo de outra. Outro casal, os primeiros momentos, a hora da descoberta. Encontros, separações e um sanduíche. No cinema o sabor está nos olhos de quem vê." 


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cinema documentáio: ficção, verdade e realidade;


O essencial da vida é sem duvidas a informação. É a partir dela que você consegue, através de uma constante atividade mental, mapear certas asserções sobre o mundo. Bem mais do que isso, temos o dever de refletir as transformações sempre com um olhar clínico, levantando sempre os porquês, de uma historia tida como factual ser assim. Nesse momento temos no cinema documentário a palavra chave que vai provocar um longo discurso sobre os significados e as impressões que encadeiam o imaginário das pessoas sobre a vida real.
Por muito tempo o documentário foi visto como um produto embalado com os códigos de verdade. Entendemos por isso, as produções cinematográficas que eram simples falácias, no sentido de promoverem uma reprodução assertivas de imagens e códigos sobre a realidade, encabeça de forma fraudulenta por alguns cineastas, à medida que promovia um dialogo singularizado com o expectador, ao entender essas representações como uma produção-verdade.
Até meados da década de 50 do século XX, é perceptível um estilo clássico que definia o cinema documentário: “a voz over ou voz de Deus[1]. A locução fora-de-campo era caracterizada por uma voz que anunciava, provocando uma narrativa que tentava tomar conta de um roteiro, delineando as asserções sobre determinado tema. As cenas tornam-se automática, no momento em que a imponência do locutor direciona as ações, desenhando de forma parcial uma dinâmica.
Uma década depois, é notável a evolução de técnicas de filmagem, e uma modificação significativa no seu artesanato, “com o aparecimento da estética do cinema direto/ verdade, o documentário mais autoral passa a enunciar por asserções dialógicas[2]. Um verdadeiro leque se abre na construção dos sentidos, e a colocação de falas, a criação de personagens, ajuda a montar um novo amalgama que cria maior dinâmica e flexibilidade nos timbres dos sujeitos, que tendem a falar do mundo, ou de si.
As transformações sociais contemporâneas são tão intensas, que por vezes é preciso reinventar diariamente os sentidos de existência. É fácil ouvir a sonorização das crises da alma, de que “tem sempre algo morrendo e nascendo no peito”.  Nada mais trivial ao estar de um egocêntrico. Quem dirá no cinema documentário?  Existe em seu corpo uma constante que forma sessões de escatologia, onde há uma necessidade de mapear seu lugar social, assim como a criação de um perfil que tende a ser remodelado nos conceitos de circularidade, a fim de se firmar uma identidade no viés de uma pluralidade linguístico-interpretativo.
Ao pensarmos sobre a ficção nos documentários, transportamos os sentidos a cenas de entretenimento. Imagens, sons e movimento acabam por resumir as produções a mercadorias sem nenhum fundo qualitativo e, que não são capazes de acrescentar informações úteis ao espectador. Uma lógica que por um bom tempo cristalizou o imaginário de muitas pessoas. Mas é preciso problematizar esse objeto ficcional, a fim de filtrar, de uma primeira aparência, signos que permaneceram ocultos as margens de um mero entretenimento.
            É fatigante fica em certo arrodeio para entender a veracidade sobre um documentário, sendo que as “verdades ficcionais” são relativas e, as fronteiras vão além de do entendimento, por serem intrínsecas. “Um documentário pode certamente mostrar algo que não é real e continuar a ser documentário” [3]. Um ponto intrigante em toda essa questão é a ética, quando você tem um compromisso com a exatidão, no momento em que é exigida uma habilitação pessoal em reconstitui e interpreta um fato.
            Quando estamos assistindo um filme, independente do gênero, acabamos por mergulhar em um caminho, muitas vezes sem volta. Não atentamos por uma ação fatalista, as coisas podem ser bem mais simples quando se deseja. Mas colocamos uma ótica sobre a dinâmica que nos prende, onde somos os verdadeiros mestres da adivinhação, e o deleite maior se fixa quando somos postos a surpresas, ou será aos velhos truques de impressão? No curta “O Sanduiche”, produzido por Jorge Furtado no ano 2000, encontramos um bom exemplo para essa ideia.
            A estética do curta é designada como um encadeamento. As imagens são aleatórias, e o espectador acaba por criar uma expectativa “obvia” em relação às cenas. Mas tomba por varias vezes na “falsificação” da verdade por parte do documentarista. Não há por que se alarmar nesse momento. O interessante do curta de Jorge Furtado é o significado que dar a ficção ao trabalhar a promoção da verdade (no jogo de impressões/ quebra), formando um canal que discuti a realidade da manipulação assertiva do documentário.  O ponto alto se dar “quando o fim de alguma coisa pode ser o começo de outra[4].


NOTAS


[1] RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal... o que é mesmo documentário? – São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2008. p.23
[2] RAMOS, Fernão Pessoa. Op. Cit. p23
[3] RAMOS, Fernão Pessoa. Op. Cit.p.30


*trabalho de História e Cinema
THIAGO VENICIUS DE SOUSA
GRADUANDO BACHARELADO EM HISTÓRIA - UFPI

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Medo urbano e suas expressões


 
O mundo contemporâneo se molda nos tramites do capitalismo. É inegável seu valor em meio às conjunturas sociais, se pressupormos sua ação na formação de símbolos culturais. Com o desenvolvimento da ciência durante o século XVIII, é fácil notar essa cifra, na qual pode ser resumida na própria ideia de progresso pela corrente positivista. É irônico até pensar em uma linearidade dos fatos, vendo a pluralidade de eventos políticos, econômicos e cultural de cada civilização. De modo geral, o idealismo de advérbios da ciência moderna, será aos poucos o desenvolvimento dos grandes centros urbanos.
       Uma olhada na historiografia é fácil notar os empecilhos que foram criados nas constituições urbanas. Uma delas, que é de fundamental importância para entender esse processo, foi o embate ideológico do “novo”, com as raízes do passado. Talvez seja essa a primeira lógica da dinâmica, com seus novos mecanismos de sociabilidade. Mais do que isso, é notar no imaginário dos sujeitos particularidades com esse novo: o medo Caracterizando-se como uma paralisação, estado de alerta, incerteza, covardia (oposto à coragem).[1] Existe uma diversidade conceitual e, é isso que vai acabar por tornar o tema complexo. Baierl ao entender o medo, coloca a violência urbana como um fator que fundamentar a sua problemática. Por outro lado, o que vai envolver novos signos do medo são as particularidades de natureza humana. O que fica em voga, nada mais é que as relações intrínsecas ao eu pessoal.
Na nossa sociedade e na historia da humanidade, o medo tem sido usado como instrumento de manipulação das pessoas, subjugando-as, tornando-as escravas e dominadas por determinados indivíduos, grupos ou situações. [2]
                   Hoje é comum ouvir, nos mais diversos meios de comunicação em massa à frase “reféns da violência”. As pessoas se sentem acuadas, e a projeção que fazem da violência recai sobre o medo, reflexos cabíveis nas injustiças, falta de maior rigor nas leis, a uma aceitação ou de certo modo a anestesia geral que tomamos diariamente ao banalizar a morte. É incrível o fetiche que temos pelo sangue, e suas diferentes formas que sangram nas paginas online, revistas ou sinais abertos da violência em acidentes de trânsito. Uma das essências que alimento nosso desejo pessoal é a informação, mas esse tipo de caso, o nosso fetiche pelo sangue, acaba por formatar as sensibilidades, e o que sobra é um aprisionamento nos receios e o desenvolvimento de uma psicopatia singularizada. Entendemos nesse ultimo caso, a generalização de um desejo sanguinária que acaba por ocultar as emoções.
                   A aceleração do processo de urbanização faz com que os mecanismos que aprisionam os sujeitos à clausura, se assim podemos dizer, ao aludir às barreiras do muro que separam as particularidades de seu mundo a rua, definem a especificidade da violência de forma intensa. Um dos aspectos mais visíveis se dá nas grandes cidades metropolitanas. Sons, imagens, movimentos, talvez seja uma das melhores representações desse mundo real. Mas qual realidade? Dos que vivem por si só, ou dos que pensam uma existência, não passando de meras marionetes de um sistema globalizado?
                   Por vezes, é nessas colocações, do impor e se opor a uma logica já “pré-disponível” das grandes redes urbanas capitalizadas, que vai surgindo o medo; o medo do outro (daquilo que se coloca como diferente de sua cultura), das circunstâncias que lhe dão o ar do existencialismo, das convulsões que podem acarretar fissuras nas estruturas sociais, como as crises econômicas ou, no campo ideológico da politica, sendo uma consequência latente as guerras. Não é preciso dizer muita coisa, basta policiar os sentidos e ver as transformações em sua volta ocorrerem de modo tão intenso, que por vezes fica difícil “assimilar” as circunstâncias.
O medo social é um medo construído socialmente, como o fim último de submeter pessoas e coletividades inteiras a interesses próprios e de grupos, e tem sua gênese na própria dinâmica sociedade. Medo produzido e construído em determinados contextos sociais e individuais, por determinados grupos ou pessoas, com vistas a atingir determinados objetivos de subjugar, dominar e controlar o outro, e grupos, através da intimidação e coerção. Esse medo leva determinadas coletividades, territorialidades em determinados espaços, a temer tal ameaça advinda desses grupos.[3]
                   Para entender o medo não basta reduzir os significados aos sujeitos da violência. É preciso problematizar outros fatores e, os estudos de Pedro Vilarinho Castelo Branco[4], nos abre um novo lócus, ao ser analisado, em seu terceiro capitulo, um questionamento por parte de alguns literatos (como Clodoaldo Freitas, Abdias Neves e Higino Cunha), de um novo perfil de masculinidade na capital piauiense. Para os literatos, a nova masculinidade definia-se pela polidez, pela boa formação intelectual e cultural.
                   Os rompimentos com os valores tradicionais seria uma das necessidades para manter sincronia com o processo de modernização, durante o final do século XIX e inicio do século XX em Teresina. Existiu certa intransigência por uma sociedade altamente paternalista em aceitar esses comportamentos.  E o medo recai sobre a confusão feita na distinção dos gêneros, quando o homem demonstrava sensibilidade e afetividade com os filhos, logo o receio sobrepõe-se a um macho supostamente feminizado.
                   No passado, ainda durante o século XVIII, a ciência vai impondo seu discurso nos diferentes mecanismos, tanto no que diz respeito a questões de higiene, saneamento, de ordem urbanista, como no comportamento das pessoas. A validade dessas ideias é que vai se criar uma dinâmica nos grandes centros urbanos. Um dos objetivos era separar, isolar, ou nas ultimas consequências excluir os grilhões que reagem de forma contraria. Na obra de Foucault, fica evidente um mal que assombra a sociedade e, que vai assolar por muito tempo o imaginário da população campesina.
(...) Na época clássica, a consciência da loucura e a consciência do destino não se haviam separado uma da outra. A experiência do desatino que guiara todas as pratica do internamento envolvia a tal ponto a consciência da loucura que a deixa, ou quase, desaparecer, em todo caso arrastava-a por um caminho de regressão onde ela estava prestes a perder o que tinha de mais especifico. [5]

 Na terceira parte do livro, em “o grande medo” é possível ver um pouco dessa especificidade.
Bruscamente em alguns anos no meio do século XVIII, surge um medo. Medo que se formula em termos médicos mas que é animado, no fundo por todo um mito moral. Assusta-se com um mal muito misterioso que se espalhava, diz-se, a partir das casas de internamento e logo ameaçaria as cidades. Fala-se em febre de prisão, lembra-se a carroça dos condenados, esses homens acorrentados que atravessam as cidades deixando atrás de si uma esteira do mal. Atribui-se ao escorbuto contagio imaginário, prevê-se que o ar viciado pelo mal corrompia os bairros habitados. E novamente se impõe a grande imagem do horror medieval, fazendo surgir, nas metáforas do assombro, um segundo pânico. As casas de internamento não é mais apenas o leprosário afastado das cidades: é a própria lepra diante da cidade.[6]
                        No final do século XVII é visível à redução de leprosários[7], por conta de um ativo processo de higienização que tratou de dar uma nova fisionomia aos centros urbanos. A sacada maior, se assim podemos nos referir a esse processo de limpeza, foi o isolamento desses enfermos em áreas distantes das cidades. A loucura forma um novo imaginário do medo, no momento em que seu recanto passa a ser o centro dos leprosos, que depois da diminuição da incidência de doentes são gradativamente abandonados.  O que devemos entender nesse momento, relendo a ultima citação em destaque, é a dificuldade que as pessoas tinham de separar o “antigo mal” à loucura. Desse modo, as consequências nefastas seriam as mesmas, já que viviam e respiravam o mesmo ar da ultima enfermidade.
 (...) O medo se faz mais urgente; a intensidade afetiva de tudo aquilo que reage a loucura não deixa aumentar: tem-se a impressão de que então se isola do todo cósmico e de sua estabilidade sazonal um elemento independente, relativo, móvel, submetido a uma progressão constante ou a uma aceleração continua, e que está encarregado de prestar constas dessa multiplicação incessante desse grande contagio da loucura.[8]
Na citação anterior, o que está em jogo nada mais é que a perca dos valores burgueses (utilizando os princípios da moralidade, que acabam por regular o comportamento do individuo), e é isso que lhe vai insurgir o medo.  A loucura era vista como uma desgraça para o homem. O ponto final entre as linhas do seu tempo e os valores, que envolviam a moral, a religião e seus princípios ideológicos. Existia uma mobilidade das ideias, ao ponto de se criar um novo relacionamento com a loucura, “num certo sentido um relacionamento mais imediato e também mais exterior”. Em um segundo momento, durante o século XIX, vai surgir outro discurso, que é o próprio homem que se isola, ao perder a verdade, a sua própria verdade. Nesse aspecto, a loucura estaria diretamente ligada à razão, e o medo incarnado no psicológico das pessoas.
Pensando ainda as transformações sociais, lembramos um pouco das colocações de Fátima Baierl, ao desenvolver a temática do medo tendo em ótica a violência urbana. Sendo assim, desde o século das luzes, um dos princípios de ordem burguesa que ficaram expostos foi o de liberdade. E é essa liberdade que vai sendo tocada como uma feria incurável, nos momentos em que a violência vira um mercado lucrativo, quando nos referimos ao aumento nas taxas dos planos de saúde e segurança privada.
De acordo com os estudo de Zygmunt Bauman,  o principio do prazer esta ai reduzido a medida do principio da realidade e as normas compreendem essa realidade que é a mediada do realista[9].  O que torna um entendimento, e o que fixa uma força na obra Baumam é as nuances que pluralizam os mal-estares que acabam por registrar essa modernidade. Sendo mais claro, o maior desafio da sociedade moderna é manter as aparências, por consequência disso, vivemos enclausurados a “excessos de ordem” que acabam por reduzir os significados de liberdade. Esse ar do liberalismo, do mesmo modo que abre as correntes das ações encadeia o medo, a partir do momento que há o enquadramento dos comportamentos e um uma crescente verticalização entre os sujeitos. 


NOTAS

[1] Luzia Fátima Baierl em “Medo Social: da violência visível ao invisível da violência”, nos dar algumas chaves para entender o significado do medo.
[2] BAIERL, Luzia Fátima. Medo Social. Da Violência Visível ao Invisível da Violência – São Paulo, Cortez, 2004. p.39
[3] BAIERL, Luzia Fátima. Op. Cit.p48.
[4] CASTELO BRANCO, Pedro Vilarinho. História e masculinidade: a prática escriturística dos literatos e as vivências masculinas no inicio do século XX – Teresina: EDUFPI, 2008.
[5] FOUCAULT, Michel. História da loucura: na Idade clássica – São Paulo: Perspectiva, 2010. 9. Ed. – (Estudos; 61/ dirigida por J. Guinsburg). p.359
[6] FOUCAULT, Michel. Op. Cit.
[7] Casa de reclusão de pessoa acometidas pela lepra.
[8] FOUCAULT, Michel. Op. Cit.p.362
[9] BAUMAN, Zigmunt. O mal estar da pós-modernidade – Rio de Janeiro: Jorge Zahr Ed., 1998.


*trabalho de História Contemporâne I
THIAGO VENICIUS DE SOUSA
GRADUANDO BACHARELADO EM HISTÓRIA - UFPI

Espoliação a moral: dama burguesa desce do salto e provoca motin na região¹ da saúde

RESENHA: PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. As barricadas da Saúde: vacina e protesto popular no Rio de Janeiro da primeira República. – São Paulo: Editora Fundação Perseu abramo, 2002.





O Rio de Janeiro desde a instauração da Republica, vem passando por um processo de transformação nas estruturas sociais. É evidente um boom populacional, e em projeções claras o aumento de cortiços, sobrados e epidemias. Temos no inicio do século XX a legitimação da ciência, assim como a criação do discurso de verdade que vai se organizar em um tom politico, agindo diretamente na interferência dos corpos[2]. Com o fim da escravidão do negro vai surgir uma nova classe que se enquadraria nas ideias positivistas de equidade, formando assim um acréscimo à ordem dos cidadãos. Mas a própria ideia de cidadania é contraditória, a partir do momento que ela é construída de cima para baixo e o lugar social das pessoas, nos primeiros anos da republica, se adequaria a ideia de estadania[3].[4].
                         Durante muito tempo a participação do povo na politica foi reduzida, ou simplesmente nunca se teve esse papel na sociedade. Uma consideração geral é qualificar esses sujeitos como meras marionetes de um sistema politico, que desde os primórdios de um segmento aristocrático, se viu manipulado e passivo de ações. Os tons[5] republicanos que foram capazes de derrubar a monarquia tinham como um dos intuídos dar goles de vida a população, contra uma estrutura social que não garantia seus direitos e era negligente aos seus anseios. Mas afinal, o que sobrou foi apenas uma canção romântica, onde um ufanismo republicano nada fez além de adequar suas ideias nas linhas de uma monarquia, particularmente democrática.
                   As ideias liberais adotadas em toda campanha republicana se mostrou falha. E as contradições começam quando as ações de progressistas do governam, tende a remodelar a sociedade carioca, onde o primeiro passo se encontra na alteração dos costumes[6]. Nada mais que uma exportação dos valores ocidentais, tendo a França como um modelo e perfil de civilidade, desde o processo de independência. As mudanças não vinham com uma aceitação homogenia, existiram sempre as notas de rodapé que colocavam clareza as divergências. Nesse momento é perceptível um fator que adequaria a população a um agente participativo, quando pensamos na questão de “por e se opor”, não sendo apenas meros produto de manipulação, ou uma categoria de bestializados.
                   Uma das chaves na verbalização da historia é a constante atividade mental que o historiador tem que fazer, ao transformar o “exótico em familiar e o familiar em exótico”[7]. Na ultima colocação, a essência prima do trabalho de um pesquisador é a constante tarefa de problematizar os fatos. A questão é não se entregar ou se deixar convencer por uma amostragem, sem primeiramente levantar os porquês de sua casualidade ou, simplesmente divergir entre o polo da ação, na abertura de uma nova perspectiva de interpretação. E os trabalhos de alguns contemporâneos tendem a dar conta disso, como à consideração do agente popular como um objeto fundamental no cenário político, não como o órgão central da sociedade em si, mas como um motor fundamental no seu funcionalismo.
                   A revolta da vacina é considerada por alguns contemporâneos a prova de que a população carioca não ficou a margem das ações do Estado, sem impor sua reação a atos ditos impopulares. A revolta vai ser uma, das várias manifestações de descontentamento popular, como a irrupção dado pelo aumento do imposto sobre passagem de bondes, aumento dos impostos em itens de consumo, além do monopólio da carne verde instituído pelo governo[8]. Muito dessas manifestações populares irão ser intituladas como baderna, provocando motins desnecessários e muitas vezes ilógicos, como foi intitulada a manifestação contra o projeto da vacina obrigatória.
                   Leonardo Pereira faz um balanço sobre o que foi, como se constituiu, quem são os sujeitos da ação, quais as implicações históricas e primeiramente o contexto em que se instaurou a Revolta da Vacina. É nesses aspectos que vai sendo delineando seu trabalho em As Barricadas da Saúde. Formado em Ciências Sociais é doutor em História Social (IFCH/ Unicamp), Leonardo Pereira sugere uma segunda avaliação sobre o acontecimento de 31 de outubro de 1904, na cidade do Rio de Janeiro. Criando novos signos em um caminho praticamente às cegas, ao ter em mãos a difícil tarefa de desvendar os valores e sentimentos ocultos da revolta, por parte daqueles sujeitos considerados elementos transgressores a ordem pública. Para construir seu argumento, é feito um mapeamento e inicialmente uma analise factual dos escritos-memória por parte de alguns literatos (como Olavo Bilac), opositores do governo[9] e imprensa.
                   Voltando ao contexto da época, o Rio de Janeiro passava por um crescimento populacional geométrico, era assustador esses dados se levarmos em consideração a débil estrutura social, onde as construções das residências tinham um alto grau de salubridade e péssimos índices de saneamento; além de déficit na economia e crescimento lento de um capital industrial. A ação do Estado foi de fundamental importância nesse contexto, primeiramente para por um frei e limitar a entrada de imigrantes. Se já não existia emprego suficiente capaz de ocupar uma massa ociosa, houve a qualificação da mão de obra, no momento que imigrantes concorriam com moradores locais. E não só isso, é preciso lembrar também dos movimentos migratórios dentro do território, em especial as regiões do nordeste brasileiro, onde as pessoas fugiam da fome e miséria, levando consigo uma única arma: a esperança de uma vida melhor.
                   Nem sempre essa esperança foi o carro chefe desses miseráveis, já que a realidade é bem diferente do que se imaginava. O cenário social do Rio de Janeiro era lamentável. Os erros se codificam na ausência de um planejamento urbano e descaso com a saúde publica. Prova disso foi à erupção de epidemias como a febre amarela, malária e peste bubônica. Era um caos a incidências de doentes e a consequência latente das mortes. Um mal que assolou por muito tempo o imaginário das pessoas e que precisava ser combatido a duras penas. E foi nessa ideia, que encontramos no saber cientifico as táticas e medidas para a eliminação das moléstias. A primeira delas foi de se localizar o mal e, posteriormente excluir os agentes transmissores. Dos três males, apenas dois[10] eram consequência de agentes externos, e ficava mais fácil atuar contra os transmissores. O grande desafio aos agentes da saúde era a malária, “causada por um vírus transmissível pelo ar, era muito difícil de ser combatido do que outras doenças que tinham em insetos e animais os vetores de transmissão[11]. Tendo em vista o medo eminente de sua proliferação, o que restava para as autoridades sanitárias era a obrigatoriedade da vacina.
                   Que os primeiros anos da Republica foi marcado por uma instabilidade, desprovidos de uma chave de organização institucional[12] não há duvida. Mas isso não prova, nem põe trações finais na ação dos governantes republicanos em sobrepor-se aos grilhões. O governo de Rodrigues Alves foi delimitado[13] por dois valores, se assim podemos dizer, em referencia as prioridades aos projetos de reforma urbanista e saneamento da capital. A primeira promovida pelo prefeito Pereira Passos, já a segunda ficou a cargo do médico Oswaldo Cruz. Houve uma reação em cadeia sobre essas medidas, e o destaque maior se deu na obrigatoriedade da vacina. Os opositores encontraram na obrigatoriedade um verdadeiro palco de repudio ao governo, alegando uma espoliação aos valores morais[14] dos cidadãos, além de ir contra aos princípios liberais. Lauro Sodré aparece com um dos sujeitos que vai “homogeneizar” a concentração de revoltosos, que tinham na vacina um inimigo em comum.
                   Mas afinal, que principio moral era esse?
Este argumento moral referia-se, porém, não, somente ao ataque ao corpo ou a algum tipo de liberdade abstrata, mas também ao direito a continuar a exercer sua própria crença – conquistado, ao longo de décadas, em um embate que remontava a tentativa de repressão às praticas religiosas negras no tempo da escravidão[15].
Havia uma generalização, praticamente uma imposição de valores burgueses dentro de uma sociedade iletrada. As concepções de um mundo burguês, por uma parcela da população, eram estreitamente rasas, e por vezes de difícil assimilação de seus “códigos”. Entendemos assim, por um processo de aculturação das mentalidades, que de forma impositiva atendeu exclusivamente apenas os anseios de opositores ao governo, desqualificando as impressões que se singularizam o povo. Ironicamente, o perfil que se tem da população revoltosa é a imagem de uma dama burguesa, que desce do salto e provoca motim na região da saúde. Nada mais trivial, as colocações podem ser improprias, mas tiveram por muito tempo respaldo no imaginário da época.
                   O que de fato vai ocorrer é um repulsa por parte da imprensa, onde o Correio da Manhã, principal porta voz de oposição ao governo, acaba por insuflar uma revolta. Bem mais do que isso, essa ação parte do ponto dos opositores que chegaram a organizar uma Liga Contra a vacinação[16]. Os dias que acarretaram as manifestações[17] são marcados pela violência e atos de vandalismo, com depredação de bondes, ataques sistemáticos a iluminação pública e a cabos de telefonia. Era formado um verdadeiro campo de batalha. Talvez o intuído de Leonardo Pereira ao intitular sua obra como As barricadas da Saúde, tenho como um ponto qualitativo a sistemática da ação dos populares em se organizar de maneira inconsequente contra uma medida que estaria diretamente ligada ao seu bem estar, de acordo com a vertente explicativa do governo.
                   Sem causa, sem corpo, sem sangue, foi assim que a revolta da vacina acabou por se qualificar, apenas um mero esqueleto preenchido pelos anseios de partidários contrários a politica de Rodrigues Alves. Uma ação terceirizada, que encontrou no povo sua arma mais forte. O que podemos entender, ainda analisando o título de Leonardo Pereira, é que as relações podem ser bem mais complexar, e as marionetes do sistema politico conseguem ter vida própria, além de por significados aos ataques sistemáticos ao patrimônio publico[18]. É notória essa cifra quando a população fazia suas “trincheiras”, se organizando em um grupo, que tinha em seu corpo uma diversidade social e étnica, que lutava não apenas por reformas nas medidas implantadas na obrigatoriedade da vacina, mas por melhores condições de vida, igualdade entre as classes e respeito às diferentes manifestações e práticas culturais[19].
                  
NOTAS

[1] Referencia dada a concentração da violência, contra a vacina obrigatória, na região portuária do Rio de Janeiro.
[2] . A ciência moderna durante os século XVIII e XX cria padrões e uniformidade na maneira de pensar e agir das pessoas, a fim de conseguir um desenvolvimento progressista dos centros urbanos.
[3] Termo criado por José Murilo de Carvalho, analisado na obra Os bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi (São Paulo, Companhia das Letras, 1987),onde os direitos de cidadão só eram conseguidos pela integração da pessoa no governo via participação politica; uma relação de clientelismo com o Estado.
[4] Disponível um definição mais clara sobre estadania em http://www.ifcs.ufrj.br/~ppghis/pdf/carvalho_cidadania_estadania.pdf  acessado 01/11/2011 as 18:37’
[5] Ideias nacionalistas de liberdade e igualdade.
[6] Entendemos nessa parte por uma mudança das mentalidades e comportamento.
[7] VELHO, Gilberto. Observando o familiar. em: Individualismo e Cultura. Rio de Janeiro, Zahar, 1981, p.33-46
[8] PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. As barricadas da Saúde: vacina e protesto popular no Rio de Janeiro da primeira República. – São Paulo: Editora Fundação Perseu abramo, 2002. p.11
[9] Referência ao Governo de Rodrigues Alves (1902-1906)
[10] Peste bubônica e febre amarela, tendo como agentes transmissores o rato e o mosquito respectivamente.
[11] PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Op. Cit. p.18
[12] A obra de Maria Alice Pereira, A invenção da República no Brasil: da aventura a rotina, é possível aprofundar mais o assunto sobre os 10 anos que surgiram à proclamação da república
[13] Entender a ideia de casualidade.
[14] Na obra de José Murilo de Carvalho, Os Bestializados, é possível encontrar uma ênfase aos princípios morais a qual a população da região da saúde lutou durante a revolta da vacina, em capito intitulado de Cidadãos Ativos: A revolta da Vacina. p.91-139
[15] PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Op. Cit.p.103
[16] Formado por um grupo de políticos opositores ao governo, estavam reunidos ao redor de Lauro Sodré. O objeto da Liga era luta contra o “ato de força” usado pela Saúde Pública para garantir a vacinação.
[17] Tem inicio no dia 11 de novembro de 1904, e os protestos acabam no dia 18 do mesmo mês;
[18] Um exemplo é a depredações a iluminação publica, interpretado por Leonardo Pereira como uma ação direta ao processo de modernidade, e uma estratégia genuína que facilitava a fuga dos populares, contra os ataques da policia. 
[19] Referencia aos ataques aos bairros de candomblé; as pessoas que exerceriam na cidade atividades de cura ligadas a “arte médica”, eram  apontados como alvo de preferencia da perseguição policial; aqueles que estariam entre as figuras como “feiticeiro africano”.




*trabalho de História do Brasil II (República)
THIAGO VENICIUS DE SOUSA
GRADUANDO BACHARELADO EM HISTÓRIA - UFPI