quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Medo urbano e suas expressões


 
O mundo contemporâneo se molda nos tramites do capitalismo. É inegável seu valor em meio às conjunturas sociais, se pressupormos sua ação na formação de símbolos culturais. Com o desenvolvimento da ciência durante o século XVIII, é fácil notar essa cifra, na qual pode ser resumida na própria ideia de progresso pela corrente positivista. É irônico até pensar em uma linearidade dos fatos, vendo a pluralidade de eventos políticos, econômicos e cultural de cada civilização. De modo geral, o idealismo de advérbios da ciência moderna, será aos poucos o desenvolvimento dos grandes centros urbanos.
       Uma olhada na historiografia é fácil notar os empecilhos que foram criados nas constituições urbanas. Uma delas, que é de fundamental importância para entender esse processo, foi o embate ideológico do “novo”, com as raízes do passado. Talvez seja essa a primeira lógica da dinâmica, com seus novos mecanismos de sociabilidade. Mais do que isso, é notar no imaginário dos sujeitos particularidades com esse novo: o medo Caracterizando-se como uma paralisação, estado de alerta, incerteza, covardia (oposto à coragem).[1] Existe uma diversidade conceitual e, é isso que vai acabar por tornar o tema complexo. Baierl ao entender o medo, coloca a violência urbana como um fator que fundamentar a sua problemática. Por outro lado, o que vai envolver novos signos do medo são as particularidades de natureza humana. O que fica em voga, nada mais é que as relações intrínsecas ao eu pessoal.
Na nossa sociedade e na historia da humanidade, o medo tem sido usado como instrumento de manipulação das pessoas, subjugando-as, tornando-as escravas e dominadas por determinados indivíduos, grupos ou situações. [2]
                   Hoje é comum ouvir, nos mais diversos meios de comunicação em massa à frase “reféns da violência”. As pessoas se sentem acuadas, e a projeção que fazem da violência recai sobre o medo, reflexos cabíveis nas injustiças, falta de maior rigor nas leis, a uma aceitação ou de certo modo a anestesia geral que tomamos diariamente ao banalizar a morte. É incrível o fetiche que temos pelo sangue, e suas diferentes formas que sangram nas paginas online, revistas ou sinais abertos da violência em acidentes de trânsito. Uma das essências que alimento nosso desejo pessoal é a informação, mas esse tipo de caso, o nosso fetiche pelo sangue, acaba por formatar as sensibilidades, e o que sobra é um aprisionamento nos receios e o desenvolvimento de uma psicopatia singularizada. Entendemos nesse ultimo caso, a generalização de um desejo sanguinária que acaba por ocultar as emoções.
                   A aceleração do processo de urbanização faz com que os mecanismos que aprisionam os sujeitos à clausura, se assim podemos dizer, ao aludir às barreiras do muro que separam as particularidades de seu mundo a rua, definem a especificidade da violência de forma intensa. Um dos aspectos mais visíveis se dá nas grandes cidades metropolitanas. Sons, imagens, movimentos, talvez seja uma das melhores representações desse mundo real. Mas qual realidade? Dos que vivem por si só, ou dos que pensam uma existência, não passando de meras marionetes de um sistema globalizado?
                   Por vezes, é nessas colocações, do impor e se opor a uma logica já “pré-disponível” das grandes redes urbanas capitalizadas, que vai surgindo o medo; o medo do outro (daquilo que se coloca como diferente de sua cultura), das circunstâncias que lhe dão o ar do existencialismo, das convulsões que podem acarretar fissuras nas estruturas sociais, como as crises econômicas ou, no campo ideológico da politica, sendo uma consequência latente as guerras. Não é preciso dizer muita coisa, basta policiar os sentidos e ver as transformações em sua volta ocorrerem de modo tão intenso, que por vezes fica difícil “assimilar” as circunstâncias.
O medo social é um medo construído socialmente, como o fim último de submeter pessoas e coletividades inteiras a interesses próprios e de grupos, e tem sua gênese na própria dinâmica sociedade. Medo produzido e construído em determinados contextos sociais e individuais, por determinados grupos ou pessoas, com vistas a atingir determinados objetivos de subjugar, dominar e controlar o outro, e grupos, através da intimidação e coerção. Esse medo leva determinadas coletividades, territorialidades em determinados espaços, a temer tal ameaça advinda desses grupos.[3]
                   Para entender o medo não basta reduzir os significados aos sujeitos da violência. É preciso problematizar outros fatores e, os estudos de Pedro Vilarinho Castelo Branco[4], nos abre um novo lócus, ao ser analisado, em seu terceiro capitulo, um questionamento por parte de alguns literatos (como Clodoaldo Freitas, Abdias Neves e Higino Cunha), de um novo perfil de masculinidade na capital piauiense. Para os literatos, a nova masculinidade definia-se pela polidez, pela boa formação intelectual e cultural.
                   Os rompimentos com os valores tradicionais seria uma das necessidades para manter sincronia com o processo de modernização, durante o final do século XIX e inicio do século XX em Teresina. Existiu certa intransigência por uma sociedade altamente paternalista em aceitar esses comportamentos.  E o medo recai sobre a confusão feita na distinção dos gêneros, quando o homem demonstrava sensibilidade e afetividade com os filhos, logo o receio sobrepõe-se a um macho supostamente feminizado.
                   No passado, ainda durante o século XVIII, a ciência vai impondo seu discurso nos diferentes mecanismos, tanto no que diz respeito a questões de higiene, saneamento, de ordem urbanista, como no comportamento das pessoas. A validade dessas ideias é que vai se criar uma dinâmica nos grandes centros urbanos. Um dos objetivos era separar, isolar, ou nas ultimas consequências excluir os grilhões que reagem de forma contraria. Na obra de Foucault, fica evidente um mal que assombra a sociedade e, que vai assolar por muito tempo o imaginário da população campesina.
(...) Na época clássica, a consciência da loucura e a consciência do destino não se haviam separado uma da outra. A experiência do desatino que guiara todas as pratica do internamento envolvia a tal ponto a consciência da loucura que a deixa, ou quase, desaparecer, em todo caso arrastava-a por um caminho de regressão onde ela estava prestes a perder o que tinha de mais especifico. [5]

 Na terceira parte do livro, em “o grande medo” é possível ver um pouco dessa especificidade.
Bruscamente em alguns anos no meio do século XVIII, surge um medo. Medo que se formula em termos médicos mas que é animado, no fundo por todo um mito moral. Assusta-se com um mal muito misterioso que se espalhava, diz-se, a partir das casas de internamento e logo ameaçaria as cidades. Fala-se em febre de prisão, lembra-se a carroça dos condenados, esses homens acorrentados que atravessam as cidades deixando atrás de si uma esteira do mal. Atribui-se ao escorbuto contagio imaginário, prevê-se que o ar viciado pelo mal corrompia os bairros habitados. E novamente se impõe a grande imagem do horror medieval, fazendo surgir, nas metáforas do assombro, um segundo pânico. As casas de internamento não é mais apenas o leprosário afastado das cidades: é a própria lepra diante da cidade.[6]
                        No final do século XVII é visível à redução de leprosários[7], por conta de um ativo processo de higienização que tratou de dar uma nova fisionomia aos centros urbanos. A sacada maior, se assim podemos nos referir a esse processo de limpeza, foi o isolamento desses enfermos em áreas distantes das cidades. A loucura forma um novo imaginário do medo, no momento em que seu recanto passa a ser o centro dos leprosos, que depois da diminuição da incidência de doentes são gradativamente abandonados.  O que devemos entender nesse momento, relendo a ultima citação em destaque, é a dificuldade que as pessoas tinham de separar o “antigo mal” à loucura. Desse modo, as consequências nefastas seriam as mesmas, já que viviam e respiravam o mesmo ar da ultima enfermidade.
 (...) O medo se faz mais urgente; a intensidade afetiva de tudo aquilo que reage a loucura não deixa aumentar: tem-se a impressão de que então se isola do todo cósmico e de sua estabilidade sazonal um elemento independente, relativo, móvel, submetido a uma progressão constante ou a uma aceleração continua, e que está encarregado de prestar constas dessa multiplicação incessante desse grande contagio da loucura.[8]
Na citação anterior, o que está em jogo nada mais é que a perca dos valores burgueses (utilizando os princípios da moralidade, que acabam por regular o comportamento do individuo), e é isso que lhe vai insurgir o medo.  A loucura era vista como uma desgraça para o homem. O ponto final entre as linhas do seu tempo e os valores, que envolviam a moral, a religião e seus princípios ideológicos. Existia uma mobilidade das ideias, ao ponto de se criar um novo relacionamento com a loucura, “num certo sentido um relacionamento mais imediato e também mais exterior”. Em um segundo momento, durante o século XIX, vai surgir outro discurso, que é o próprio homem que se isola, ao perder a verdade, a sua própria verdade. Nesse aspecto, a loucura estaria diretamente ligada à razão, e o medo incarnado no psicológico das pessoas.
Pensando ainda as transformações sociais, lembramos um pouco das colocações de Fátima Baierl, ao desenvolver a temática do medo tendo em ótica a violência urbana. Sendo assim, desde o século das luzes, um dos princípios de ordem burguesa que ficaram expostos foi o de liberdade. E é essa liberdade que vai sendo tocada como uma feria incurável, nos momentos em que a violência vira um mercado lucrativo, quando nos referimos ao aumento nas taxas dos planos de saúde e segurança privada.
De acordo com os estudo de Zygmunt Bauman,  o principio do prazer esta ai reduzido a medida do principio da realidade e as normas compreendem essa realidade que é a mediada do realista[9].  O que torna um entendimento, e o que fixa uma força na obra Baumam é as nuances que pluralizam os mal-estares que acabam por registrar essa modernidade. Sendo mais claro, o maior desafio da sociedade moderna é manter as aparências, por consequência disso, vivemos enclausurados a “excessos de ordem” que acabam por reduzir os significados de liberdade. Esse ar do liberalismo, do mesmo modo que abre as correntes das ações encadeia o medo, a partir do momento que há o enquadramento dos comportamentos e um uma crescente verticalização entre os sujeitos. 


NOTAS

[1] Luzia Fátima Baierl em “Medo Social: da violência visível ao invisível da violência”, nos dar algumas chaves para entender o significado do medo.
[2] BAIERL, Luzia Fátima. Medo Social. Da Violência Visível ao Invisível da Violência – São Paulo, Cortez, 2004. p.39
[3] BAIERL, Luzia Fátima. Op. Cit.p48.
[4] CASTELO BRANCO, Pedro Vilarinho. História e masculinidade: a prática escriturística dos literatos e as vivências masculinas no inicio do século XX – Teresina: EDUFPI, 2008.
[5] FOUCAULT, Michel. História da loucura: na Idade clássica – São Paulo: Perspectiva, 2010. 9. Ed. – (Estudos; 61/ dirigida por J. Guinsburg). p.359
[6] FOUCAULT, Michel. Op. Cit.
[7] Casa de reclusão de pessoa acometidas pela lepra.
[8] FOUCAULT, Michel. Op. Cit.p.362
[9] BAUMAN, Zigmunt. O mal estar da pós-modernidade – Rio de Janeiro: Jorge Zahr Ed., 1998.


*trabalho de História Contemporâne I
THIAGO VENICIUS DE SOUSA
GRADUANDO BACHARELADO EM HISTÓRIA - UFPI

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