Era preciso inicialmente demarcar seu domínio, criando um núcleo central de ideias. Esse que de maneira categórica se ligaria a vigas, delimitada as fontes, onde assim, seria possível mapear o funcionalismo e a dimensão desse “organismo”. O que se propõe é analise do objeto histórico, onde o sujeito que define seus limites passe de uma analise quantitativa, a uma abordagem qualitativa.
Hoje, praticamente “tudo” vira conhecimento e reprodução historiográfica. E há de se imaginar a terna correspondência da “crise existencial” da história, ao criar em si uma visão escatológica. Ficam sempre abertos locos. E por que de tudo isso? Nada mais excitante que o dinamismo, e o perfil do historiador em querer fazer o “caos” nas bases que legitimam sua cientificidade. Apesar das ironias, as relações são bem mais complexas.
A renovação das abordagens, mais do que o enquadramento do “existencialismo”, capta o dinamismo dessa “artéria” criando novas formas de contar historia, em uma nova vertente criadas na geração dos annales: a história das mentalidades. Com o advento da NHC, a literatura passa a integrar como corpus documental consultada pelos historiadores. Além de conseguimos abstrair uma ótica na analise factual, a literatura vira produção historiográfica. Não no sentido de criar obras com caráter meramente ilustrativo e ficcional. Mas em bases solidas cientificas, arraigadas em pesquisas e um forte empiria por parte do historiador em perpassar seu enfoque de analise a um agente marginal.
Pensar literatura como objeto explicativo da historia tem sua valia, ao analisarmos as margens, o particular, os sujeitos silenciados pela historia em uma micro abordagem. Tomamos como exemplo a obra de Natalie Zemon Davis, “O retorno de Matin Guerre”. Obra escrita na década de 1980, é expressão clara dessa nova vertente. A obra permear nas turbulências das décadas de 1970 e 1980, com um céptismo por parte de alguns historiadores, como H. White, na “volta da narrativa”. White considera todo e qualquer tipo de produção historiografia que assuma forma de narrativa será categoricamente uma construção ficcional.
A obra de Natalie é rica de detalhes, e o que se pode tirar de maneira previa, é uma discursão sobre um caso de impostura. Além de um questionamento de formação de identidades, na correlação dos costumes da população campesina de Languedoc a Ortigad, a formação de um imaginário sociocultural, crenças, mitos e etc. Sua obra pode ser simplificada na perspectiva de uma nota introdutória pela autora: “ (...) O que mais ofereço ao leitor, é em parte, uma inversão minha, mas um invenção construída pela atenção escuta das vozes do passado”. (DAVIS, 1987, p. 21)
Fica claro seu objeto de analise, ao construir uma narrativa, não meramente ficcional, mas com um caráter legitimo de cientificidade. Em nota, essa complexidade se dar de maneira expositiva, com o cruzamento de fontes e a interlocução de documentos dos juízes do caso, Jean de Coras e Guilaume Le Seur. Seu embasamento teórico não se limita apenas os escritos dos juristas, que em voga, “combinando as características do texto jurídico e do texto literário, a obra de Coras sobre o caso de Martin Guerre pode nos introduzir no mundo secreto dos sentimentos e aspirações camponeses”. (DAVIS, 1987, p.20)
O que torna o diferencial em uma obra histórica, com um caráter literário, é de como a narrativa vai se proceder. Fica evidente no decorrer do texto o levantamento “hipotético”, com seus “talvez”, “creio”... para chegar a uma ideia conclusiva. É nessas incertezas, emblemando o “pecadinho” da analise factual literário, esteja a descrença por parte de uma historiografia tradicional.
[...] Talvez devido as eternas ameaças de guerra que pesavam sobre a região: o país basco e Navarra há muitos anos eram um pomo de discórdia entre França e a Espanha, e essa zona de fronteira sofria os conflitos que opunham Francisco I ao imperador Carlos V.
(...) Creio que as pessoas de Artigat têm uma visão mais correta das coisas. A questão não é saber se, com mais prudência, Arnaud du Tih poderia dar alguns retoques ao seu papel. (DAVIS, 1987, p.79)
Mas não podemos nos abster de um pensamento negacionista das fontes, por parte do trabalho fatigante do autor, enquanto as brechas explicativas sobre essa complexidade são tidas como uma resolução “quase” objetiva.
(...) O réu parece ter conduzido sozinho sua defesa, sem recorrer a conselhos de um jurista. (DAVIS, 1987, p.91)
(...) Se é correta minha hipótese de que “Martin Guerre” nutri uma razão para pensar que ele era pessoa digna de fé. (DAVIS, 1987, p. 124)
Ao reduzir o campo de analise do macro para o micro, o pesquisador margeia seu estudo em um caso especifico a fim de consegui uma representação mais profunda e generalista. Podemos subjetivar a produção de Natalie quando se cria “conectivos”, e fazer uma associação dialética entre o autor/ leitor. Sendo assim, circunscreve a possibilidade interpretativa do fato, torna a essência prima da leitura, ao interlocutor poder “agir” e mover seu pensamento nas linhas temporais dos advérbios. Criando suas próprias conclusões, ou acreditando no discurso persuasivo do autor.
Não podemos considerara a Historia como uma caixa perfeita, cheia de formas e detalhes centrados em um único objeto. Pelo contrario, vamos sempre nos deparar com suas fissuras, os arranhões, uma intensa maleabilidade que ao mesmo tempo em que cria seu desenho, se decodifica em contradições. E o sujeito encapsulado nessa logística nada mais é que as fontes.
Não nos podemos deixa enganador pelos preconceitos “solidificados” a uma estética que considere as produções históricas “um sonar perfeito”. A própria Historia pode ser considerada um jogo de peças, onde o fundamentalismo teórico, de quem “fala”, ao mesmo tempo em que cria, vai distorce a “verdade” a partir de uma narrativa. São questões que não se limitam apenas ao gênero literário. Se pensarmos um pouco, até a própria estrutura do conhecimento histórico é uma ficção, calcada na leitura que um pesquisador, que ora e meia vincula seus princípios pessoais na construção do passado.
A imprecisa documentação do século XVI, usada por Davis em “O retorno de Martin Guerre”, nos dar luz a uma desconstrução do imaginário que limita concepções, ao mesmo tempo em que asfixiava toda uma conjuntura de uma população campesina, “sobreposta” uma estrutura que redefini suas impressões a seres alienados e uno. Para entender a obra, nada mais que um questionário singular: quais seriam as provas e possibilidades construídas na presença do historiador? Como se dar o discurso sobre o que aconteceu? (bastante marcado pelo lugar do sujeito que fala – homem/ autoridade). Partindo desses pressuposto, o deleite maior se dar em conhecer um clássico, “uma estória contada, ao longo dos séculos, em livros sobre impostores famosos e causes célèbre, e ainda lembrada na aldeia de Artigada, nos Pirineus.” (DAVIS, 1987, p. 9)
*trabalho de História Moderna
THIAGO VENICIUS DE SOUSAGRADUANDO BACHARELADO EM HISTÓRIA - UFPI
REFERÊNCIA
DAVIS, Natalie Zemon. O retorno de Martin Guerre - Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1987.
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