sábado, 13 de abril de 2013

A cidadania após a redemocratização


Síntese do Cap. IV da obra "Cidadania no Brasil", de José Murilo de Carvalho.  

       Sonhos, ensejos e ilusões. É assim que inicia a “Nova República” sobre o signo da redemocratização, durante a década de 1985, com novos pilares para o desenvolvimento da cidadania. Dado a excitação do momento, com a redação da nova Constituição, o período é marcado por avanços dos direitos civis, políticos e sociais, assim como por dicotomias que interrompem a efetivação desse processo.
       Durante 21 anos de governo militar, embora o Brasil tenha alcançado índices históricos de desenvolvimentismo econômico, investimentos em infraestrutura, cultura e educação, a sociedade civil vai permanecer nas margens da opressão e censura. Fator que inibe, ou antes, neutraliza o exercício da cidadania. Onde vale ressaltar, é fundamental para se gerir uma sociedade justa e democrática.
       A elaboração da carta magna pelo constituinte, apoiando-se de maneira interessante a consultas de especialistas, setores organizados e representativos da sociedade, será um divisor de águas nas leituras sobre democracia. Entre os pontos mais significativos, está a universalização do voto, tornando-o facultativo aos analfabetos. De modo que a ampliação do eleitorado, de acordo com José Murilo de Carvalho, representará “o fim a discriminação injustificável”, isto é, a inserção de parcela da sociedade ao exercício político, onde dados que seguem o ano de 1988, aponta que apenas 8% da população não é instruída.
       É preciso frisar que a volta do ciclo democrático, não será sinônimo de estabilidade e ausência de intervenções. Primeiramente porque a nostalgia criada com a democracia politica, aos poucos desfalece de sentidos com a constante dos problemas sociais (na educação, saúde e saneamento), agravamento da situação dos direitos civis, no que tange a segurança individual, que está relacionada com o processo e de urbanização e aumento da violência, onde as politicas públicas não acompanham o ritmo dessas transformações.
      Outro fator dissidente será a integração da economia nacional ao mercado externo. A globalização e a integração das economias nacionais ao mercado internacional vêm reduzindo a soberania dos países. Ocasionalmente, resulta uma inversão dos papeis, onde o mercado financeiro passa a ser o regulador das dinâmicas sociais, enquanto o Estado vira um mero apetrecho burocrático.
       O fato é que as praticas democráticas serão marcadas por avanços e frustações. No primeiro caso, Jose Murilo de Carvalho apresenta o MST como o melhor exemplo de grupo, que mediando certo poder de organização, conseguiu inserir a vida politica parcela significativa da população excluída pela força do latifúndio. Utilizando de métodos que partiam para a ilegalidade – com a invasão de terras públicas ou não cultivadas –, para o autor essas ações são justificáveis, à medida que estes combatiam a opressão secular a qual estavam inseridas e a lentidão na resolução dos problemas agrários.
       No segundo caso, o que se observa são os limites da democratização, que não veio solucionar todos os problemas sociais. Não obstante, a corrupção se torna novamente presente, assim como se naturaliza a imagem de ineficiência da politica e do Legislativo. Uma solução imediata é a presença de figuras “messiânicas” no cenário politico, que respaldando seus discursos como salvaguardas da moral e ética.
        A figura de Fernando Collor é característica nesse momento. Logo, a utilização da TV vai ser decisiva na sua eleição a presidência. Basta lembrar que o recuso midiático promoveu um novo tipo de leitura à personalidade politica, além de criar um canal dialógico mais íntimo entre as massas populares. Como observa José Murilo de Carvalho, a personalidade arrogante, o autoritarismo e a falta de apoio no Congresso – tendo o representativo de apenas 5% das cadeiras da Câmara dos deputados pelo PRN, partido pelo qual foi eleito – são os primeiros nós para uma administrativa conturbada.
       O agravante é endossado com as primeiras denuncias de corrupção, que será confirmado pelo pronunciamento público do próprio irmão. Barganhas, favorecimentos políticos, chantagens e enriquecimento ilícito, da família e de pequenos grupos de amigos, resultarão um efeito cascata de descontentamentos, colocando o então presidente na mira reacionária da população, que irá às ruas pedir seu impeachment. O fato é observado pelo autor como um procedimento inédito de poder dado aos cidadãos no controle de seus governantes.
      A constituição de 1988 trouxe algumas inovações, como o deferimento do racismo e a tortura como crimes inafiançáveis, a fixação de um salário mínimo o limite inferior para aposentadorias e pensões, o estabelecimento de uma pensão especial para deficientes físicos e maiores de 65 anos, independentemente de terem ou não contribuído à previdência social, entre outros.  Sobre o ultimo, ainda há problemas no repasse dos valores da aposentadoria, e os déficit dessa área, vem sendo contida pela revogação do tempo de serviço, que agora combina o tempo de contribuição com idade mínima. Uma ação que é de certa o forma impopular, já que atinge diretamente de forma negativa o funcionalismo público.
     Sobre os maiores problemas do exercício da cidadania na tríade dos direitos, a maior ressonância é dada pelos direitos civis, enquanto reconhecimento, extensão e garantias. A inexistência dessas garantias se verifica principalmente na segurança individual, integridade física e no acesso a justiça, que demonstrar muitas vezes ser unilateral, com benefícios apenas aos ricos.
       De modo geral, o que pode ser observado é que o reconhecimento e a validade desses direitos dar-se essencialmente com uma educacional básica de qualidade. O resultado é a criação de cidadãos críticos e participativos da vida politica, consignando em alguns casos sua filiação a sindicatos, órgãos de classe e partidos políticos.
      Contudo, do ponto de vista das garantias civis, a sociedade pode ser dividida em três classes ou ordens: dos privilegiados ou “doutores”, dos que estão sujeitos aos rigores e benefícios da lei, e os elementos do jargão policia. Essa estratificação evidencia o quão contraditório se tornou a essência básica da Constituição Federal: a igualdade de todos perante a lei, a promoção dos direitos sociais e individuais, a defesa da liberdade e justiça. E bem mais do que isso, mostra como se foi criando um sentimento do qual vivemos em uma eterna escatologia das ideias, com a visão maniqueísta de ricos/ e pobres, de ininterruptos ciclos de democracia/ e corrupção, que acabam emergindo no senso comum da população como mais um caso fantástico, sem ordem nem grau de importância. 

REFERÊNCIA: CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo Caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.  

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