Das riquezas tupiniquins o Pau-Brasil vingou. Teve lá sua fase de ascensão no mercado e na cobiça dos portugueses. A cana de açúcar durante quase um século adoçou a vida Metrópole lusitana – amargando a dos escravos. O café durante muitos anos reinou absoluto. A borracha gerou prosperidade no Norte. E o ouro, em Minas, brilhou radiante nos olhos da Coroa. Cada riqueza com seu apogeu e declínio. Mas nenhuma dessas brilhou e imperou com tanta majestade como a bunda.
– Sim! A bunda é o ultimo ouro do Brasil! Com status de Patrimônio Publico.
Nem o Imperador dom Pedro I resistiu a sua graça. Enganam –se os que pensam que o Imperador ficou no Brasil por heróico patriotismo, ou por causa de 8mil assinaturas. A verdade – e o Imperador sabia disso, mas tinha vergonha de assumir – é que ele ficou por causa da bunda. Ele pensou:
– “Puta-que-pariu” Tu achas que deixarei esse bundaréu de cabrochas por aquelas cousas murchas lá de Portugal”? E conclui enfático e em bom som: “Pois diga ao povo que fico”
E no longo período colonial, nos navios negreiros que aqui aportavam, desceram as bundas – ou melhor – as negras, bantas e sudanesas com suas respectivas bundas. Desciam com todo ar de sua graça. Nem a Rainha de Portugal, apesar de todo o cortejo, desceu com tamanha realeza. E essa bunda que aqui aportava, exibia uma perfeição formal jamais alcançada pelo mais obstinado escultor grego. Ficou aqui pensando no esforço inútil que os escultores empreendiam para chegar a essa Perfeição. Caprichavam em tudo, nos seios, no busto, mas pecavam no quesito bunda – palavra que eles – coitados! – nem conheciam. Essa palavra – tão gostosa de pronunciar – também na boca do colono e do colonizado (antes, por impropriedade, a chamavam de traseiro, nádegas). E não se cansavam de suplicar por ela:
– Tragam-me uma bunda, que eu quero comer. – E lá vinha a negra suada no meio do canavial.
E assim o cotidiano nas fazendas do Brasil se resumia mais ou menos nessa dinâmica sombria: a cana que a negra amargava no seu trabalho escravo adoçaria o café do sinhozinho que comia a sua bunda. E dessa putaria (ou relação extra-conjugal...) nasceria a cabrocha: fruta mestiça! Morena tropicana!
Não existe pecado do lado de baixo do Equador!, lembra Chico Buarque. Mas os padres – coitados – se contorciam barrocamente entre o profano e o sagrado.
O celibato na Igreja Católica ficou comprometido: acontece que as freiras com sangue europeu, com o passar das gerações, incorporaram as suas formas das negras, de tal modo que ficou cada vez mais difícil esconder, sob suas vestes, o seu antigo traseiro. Traseiro que evoluiu para bunda: coisa protuberante, larga, deliciosamente sinuosa sob o tecido, tentação para os nossos sacerdotes que queimavam dentro de suas batinas. Imagine tudo isso somando ao calor natural do Brasil. Muitos não resistem e deram de ombros com o celibato – adeus castidade! Adeus Santidade! E tome-lhe na bunda das freiras!
Mas tarde ,nos anos de Chumbo, da década de 70, muita bunda deixou as ensolaradas praias brasileiras e desceram aos escuros porões do Regime. O General, safadão, gritava aos soldados:
– tragam-me aqui aquela comunista bunda. Vou dá um trato nela!
De lá pra cá alguma coisa mudou na Republica. E as bundas – homéricas! – continuam a ocupar todo espaço. O território brasileiro, principalmente no litoral, está dominado por elas. Hoje em dia, tornou-se impossível cruzar numa banca por todos os lados. Tantas que não poupam nem a nossa imaginação, nem aos santos! Manuel Bandeira no seu poema “Irene no Céu” deixou uma duvida. Dizia ele:
“Irene pretaIrene boaIrene sempre de bom humor
Imagina Irene entrando no céu- Licença, meu branco!E São Pedro bonanchão:- Entre, Irene. Você não precisa pedir licença.”
Por que São Pedro concedeu licença a Irene? É por ela ser boa? Pelo bom humor? Por ele ser bonachão? Por que será?
Calor Drummond de Andrade também não poderia esquecê-la. Dizem as más línguas que o poeta era tarado por uma:
“A bunda, que engraçada.Está sempre sorrindo, nunca é trágica.”“Não lhe importa o que vaiPela frente do corpo. A bunda basta-se.”“Lá vai sorrindo a bunda. Vai felizNa carícia de ser e balançarEsferas harmônicas sobre o caos.”
Acho que não precisa dizer mais nada sobre o gosto do poeta. O poema basta-se. Mas a verdade é que a bunda se aclimatou bem nos trópicos. E são bronzeadas na praia, sobem o Pelourinho na Bahia, dançam Axé, ocupam as cadeiras de nossas repartições publicas em Brasília, ocupam as capas de revistas, se acabam nos bailes Funk’s, e no Rio podem ser confundidas com o Corcovado.
Mas o grande salto da bunda foi na década de 90. Uns filhos-de-uma-mãe descobriram nela um comercio lucrativo. Incorporam-na a musica brasileira, e desde a década de 90 tem monopolizado a temática da musica, que nos anos 90 só fala de bunda e bunda! Era bunda pra cá, era bunda rebolando até o chão, na boquinha da garrafa. Era tanta bunda, mas tanta bunda, que a década de 90 vai ficar registrada nos anais da historia como período da bundalização da musica popular brasileira. E aqui vale uma confissão: isso encheu o saco!
Ao contratio do que dizem alguns moralistas de plantão, não foi a bunda quem banalizou a musica brasileira. E quando digo musica estou me referindo os sacanas que comamdam as industrias fonográficas deste país. Aproveitaram-se da nossa franqueza pela bunda e lucraram em cima dela. E como lucraram! E tudo isso acaba por embestializar o imaginário do gomem brasileiro, que sabe fazer outra coisa senão pensar em bunda.
Perdoem-me por mudar o tom dessa crônica. Crônica que corria tranqüila, sem preocupações, ao doce sabor de uma bunda. Mas acontece que há preocupações, problemas, e não posso ficar aqui me embestializando por elas, que há muito problema histórico sendo ignorado atrás de tanto carnaval. E as mulheres brasileiras, onde ficam no meio de tanta bunda? Ficarão sempre ofuscadas pelas belezas que carregam no traseiro?
Eu queria fecha a crônica entusiasmado, bem feliz, cantando ao som de Benjor, dizendo orgulhosamente que “moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. Mas acontece que hoje não, dá seria mentira.
Sim, eu sei que a bunda é bonita. Mas porra: haja saco pra tanta bunda!
Alex Canuto de Melo (in: recanto das letras)
KKK Vamos lutar para que a Bunda brasileira seja umas das 7 maravilhas do mundo!
ResponderExcluirFantástico, ri bastantea o ler isso!