O século XX é marcado por um turbilhão de ideias e valores, sejam eles no campo político, econômico, social ou cultural. Com a “constituição” do saber sendo moldado durante o século XVIII, surge uma imponente voz, que dita às formas, impõe as regras e constitui em seu timbre o silencio da verdade: a Ciência. É o primeiro passo ao racionalismo histórico e, a formação de um canal que não reluz sobre o espectro da religião católica. A ciência se torna um dos fundamentos para se chegar a “civilização”, posteriormente ao progresso. Ideias formuladas por teóricos deram as expressões chaves para esses conceitos. E o primeiro passo é voltar ao passado, para entender nas raízes históricas o homem.Quem nunca ouviu essa frase, que “a vida é feita por etapas”? Pois bem, saindo desse pressuposto, essa leitura pode ser invertida nas civilizações. Entender homem é fazer um esboço sobre seu processo evolutivo. A cifra que pressupõe essa questão é um caminho ascendente, que perpassa da barbárie a civilidade. Desse modo, surge uma lógica que verticaliza as sociedades entre primitivas e civilizadas. O nível técnico (em questões estruturais que dinamizam o funcionalismo interno) sempre esteve em voga. O pensamento científico da época delineava uma interseção entre as diferentes culturais. Havia algo em comum entre elas, e o ponto neutro da evolução lhe pontifica. E o que sobra? A criação, até então evidente, de subcategorias evolutivas, dando um grau de uniformidade e passagem obrigatória.O saber antropológico da virada do século XIX para o inicio do século XX foi marcado por conceitos evolucionista. A apropriação por parte dos estudiosos dos conceitos darwinianos, tendo como uma das referencia a “Origem das espécies”, foi de fundamental importância na construção das primeiras teorias sobre raça. A biologia esteve sempre presente nesse processo, formando de certo modo uma bicéfalia. Isso no sentido em que dois fatores (biológico e racial) formam apenas uma operação: a genética. Os caracteres implícitos, passados ou adquiridos que forma um perfil étnico, marca sua predeterminação cultural. A tendência é achar inerte “todo” e qualquer sociedade. Sua biologia cromática abre de maneira linear o etnocentrismo.Imaginar as civilizações nas correntes do positivismo é reduzir o campo informativo em singularidades. Não caminhamos nas linhas do tempo em um traçado retilíneo. Pelo contrario, os intervalos, as implicações históricas, as eternas contradições é que vão criar o sentido da vida. Mas, enquanto não chegamos a esse ponto, é preciso entender as impressões evolucionistas e, como foram desenvolvidasas questões ideológicas e racistas. Um caso absurdo, mas que ganhou bastante valia no decorrer do primeiro século. Seu respaldo não veio por assimilarem questões empíricas, mas na formação de um discurso forte, e com embasamento metodológico e epistemológico da ciência vigente.Conde de Lapouge, Gorbineu, Ernst Haekel usaram seus conceitos sobre evolução da espécie, assim como na constituição das raças, formando o que, supostamente chamaríamos hoje de uma apartheid cultura. Colocar lacunas étnicas que diferenciem seu grau, ordem e categorias nas civilizações, tinha uma logica: evitar a mestiçagem. A mistura sempre foi entendida como uma desgraça para as sociedades, logo a degeneração entre “espécies distintas” sairiam indivíduos instáveis e desarmônicos. O negro foi se tornou um grande ator no palco das ciências, à medida que entender sua genealógica, seria possível ditar os porquês de uma raça tida como inferior.Ao sistematizar um estudo sobre o negro, foi possível balizar essa concepção racista.Sua incapacidade intelectual, de acordo com Nina Rodrigues, teria causas obvias, como a ossificação precoce das suturas cranianas. Não desenvolvendo por completo o status do intelecto, seria impossível compreender a dinâmica externa ao seu mundo e, ate mesmo canalizar sua cultura a um processo de civilização, já que sua morfologia dificulta o processamento de símbolos sociais mais complexos. Outra observação é quando ocorria de fato essa aculturação, pois o mesmo adentrava de maneira distorcida. Novos significados, novas representações... Mas na verdade, o que evidenciava essa dicotomia, era a pluralização do conceito negro.Entender os laços que une essa cifra é lembrar a descrição de Nina Rodrigues para os ritos africanos, em seus estudos focados na Bahia, chamados de “animismo fetichista”. Esse seria o ultimo grau que capacitava o negro a uma crença, dado a sua inferioridade. Degenerar é perder a pureza do seu autoctonismo “linguístico cultura”, e tornar visíveis traços que divergem de uma nascente primaria, é sobrepor, impor. Esse diálogo final tem pretensões de entender por outro lado a polarização das ideias racista dentro da própria cultura negra, no desenvolvimento conceitual de pureza. Nina Rodrigues aponta a mestiçagem como um fator que pondera essa causa. O contato com a mãe África cria o cenário perfeito e, é o que vai acabar por legitimar a raça como pura.As relações ficam complexas quando procuramos nos inventáriosculturais as medidas que consomem essas relações.Ao estudar os nagôs, Beatriz Goes Dantas, delineia toda essa percepção, e a constituição do pensamento racista, assimilado por muitos estudiosos no inicio do século XX, assim como o citado Nina Rodrigues. Em sua analise, propõe-se uma observação de como vai se constitui esse imaginário nos terreiros de Laranjeiras e nos candomblés nagôs da Bahia. É claro uma distinção entre eles, e contraditório até a intitulação de nagô. O que poderíamos esperar, de acordo com Beatriz, seria uma simbiose entre elas, já que especulativamente seriam formados pelos mesmos traços, características e afins culturais, se considerarmos a etimologia da palavra “puro”.Notamos uma corriqueira relação entre os terreiros, e as linhas verticais que vão conduzindo um estar de “eu sou melhor”, “legitimo”. Nada mais trivial, já que a ótica de um terreiro é sua preponderância sobre o outro. Beatriz nota essa capacidade distintiva, como uma etapa de autoafirmação,criando o lócus diferenciativo entre elas: sua identidade.Talvez seja isso a grande levada. Não se pode ignorar as formas de se pensar nagô, como também não se pode resumir a diversidade como meras deturpações. Onde ficariam os significados? toda cultura se prova assim, entre dois ponto e sua logica de vida.Ainda é um desafio pensar o negro como um alvo aproximativo de nossa “realidade”, sem levantar aquele “que” do preconceito. O próprio prefixo da palavra já é carregado de sentido, esse condensado por informações já predefinidas, antes mesmo de se conhecer ou experimentar o Outro. Por muito tempo, até fazer uma ligação do candomblé como uma religião do negro, não sai de associações como uma simples prática festiva, diferente, exótica ou, até mesmo com representação de obscuridade. O clima do ritual fazia o “sentir-se” evocando uma nevoa “preta”. Note, ate mesmo simbologia do reconhecer do outro é carregado de preconceito. O primeiro ato sem duvidas é o estranhamento, mas não é uma ação que permaneça cristalizada no tempo sem reação.Os estudos de Lévi-Strauss é sem duvidas a grande coqueluche da antropologia moderna. Seus conceitos foram capazes de abrir novos caminhos de como compreender a formação das raças e da cultura, fazendo um verdadeiro diálogo com o relativismo. Já foi comprovado que não é o caráter biológico ou geográfico que mede o intelecto do individuo ou sua atividade civilizatória. Pontuamos que existe uma real complexidade nessa grande teia que chamamos sociedade. Ser singular é permanecer inerte em um submundo residual dos valores. Fechar os olhos a uma pluralidade se qualifica a um nivelamento inicial do pensamento estacionário.
Lévi-Strauss propõe inicialmente que existe diferentes sociedade e, que as mesmas têm sua lógica, formação simbólica, dinâmica e que cada cultura opera sua visão de mundo. Sendo assim, é possível imaginar a constituição das diferentes formas étnicas da cultura nagô. É preciso filtrar primeiramente delas uma ideologia de pluralidade. Enxergar nos pontos que divergem somas. Equacionar os valores e ver que o resultado nada mais é que a própria legitimidade da etnia nagô nas diferentes sociedades africanas.
REFERÊNCIA
CRUZ, Robson Rogério: “Branco não tem santo: representações de raça no camdonblé”DANTAS, Beatriz Góis: Repensando a pureza nagô. In: Religião e SociedadeRODRIGUES, Nina: Animismo Fetichista
*trabalho Cutura Afro
THIAGO VENICIUS DE SOUSA
GRADUANDO BACHARELADO EM HISTÓRIA - UFPI

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