quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Resenha crítica UM FORMIGUEIRO SOBRE A GRAMA


Capa da primeira edição do jornal nanico Gramma (1972)
A dissertação UM FORMIGUEIRO SOBRE A GRAMA: A produção histórica da subjetividade underground em Teresina-PI na década de 1970, não é dividida em capítulos, mas em três linhas de constituição. A explicação do termo é dada quando lembramos o encontro dos corpos (individuais e objetos) mapeados entre fusos e meridianos. É uma metáfora, onde o historiador se apropria da criação de René Descartes, o plano cartesiano, para localizar uma problemática em um determinado espaço. E bem mais do que isso, ir além das meras abreviações do factual, de cultura underground. Há entrelaçamentos verticais e horizontais, que se misturam e são ao mesmo tempo os excessos e retrações de uma pesquisa, que tende a se pluralizar conceitualmente.
Existe uma escrita para História? Essa pode ser uma das primeiras observações problemáticas ao analisar A produção histórica da subjetividade underground em Teresina-PI na década de 1970, de Ernani José Brandão Júnior. Uma longa discursão que se envereda em um plano cartografado, com sua narrativa em primeira pessoa, sobre delivery juvenis de classe média com a arte, instituições disciplinares e, com a própria essência construtiva das particularidades da primeira voz do verbo: o eu, enquanto agente e adjunto das modelagens socioculturais.
Quando somos abordados por esse tipo de escrita, também conhecida como participativa, onde o narrador tende a construir os fatos apresentando imagens ao interlocutor, de forma bem íntima, é inevitável não considerara-la como um registro literário. Logo, o estranhamento recai sobre essa não “objetividade”, onde marcas da pessoalidade do narrador permeiam nas linhas temporais de sua pesquisa. Não que isso não ocorra nas escritas tradicionais, pois no momento em que você escreve sobre algo, sempre colocar um pouco de si,–  emoções, anseios, e perspectivas que irão sendo reveladas no desmembramento dos fatos. Mas chega a ser intrigante essa nota, quando se pensa em um texto histórico.
 Ernani Brandão tenta dar validade a seu discurso se utilizando das metodologias, de táticas discursivas, ao entender que a subjetividade (underground), termo problematizadas por Félix Guattari, Suely Rolnik e Foucault, é estabelecida pelos jovens teresinenses de maneira homogênea nas relações de poder entre as instituições disciplinares (Estado, Igreja, Família, Trabalho, Sociedade de Consumo, Religião, Escola e a Politica), pelos embates ideológicos e construção dos seus perfis sociais. A arte é o ponto chave. Compreender e apreender ela em seus diferentes aspectos, seja pela mídia, jornais impressões, crônicas, charges, musicais ou produções fílmicas durante a década de 1970, da luz de como essa complexidade, ou as linhas discursivas, tem um ponto de partida em um não-saber.
O autor ao se considerar um cartógarafo, delineia um pensamento que a História não se resume aos fatos, mas um jogo de interpretação e produção. A primeira se relaciona no encontro dos corpos, esses que foi capaz de guiar-lhe no desbravamento de um mundo até então desconhecido: o da subjetividade underground. Na segunda parte, evidencia a linguagem e, a possibilidade de fazer um trabalho se elucidando com as palavras, ao se apropriar de enunciados do poeta Manoel de Barros, de conseguir transver a realidade. Em termos, a expressão central é como fazer dois corpos, o do autor e leitor, se conjugarem em um só verbo entre as linhas da produção, sem a narrativa histórica cair no descrédito de semiciência.
         A primeira linha de constituição do corpo – linguagem – Subjetividade Underground a partir dos movimentos de criação no campo da arte, a arte ganha alusões claras e um palco principal onde manifestações artísticas vão além de uma projeção singular de inconformidade com um mundo cada vez mais globalizado, individualista e alienado. As construções no campo da arte ultrapassam limites entre inventor e obra, de modo que se consomem não apenas enquanto objeto, mas símbolos figurativos em diferentes espaços sejam elas praças, avenidas, igrejas ou embriagamento das sensibilidades em um por do sol. É uma espécie de consoantes musical, que ganham suas curvas na medida em que são sentidas nos diferentes espectros da vida, da dor ao excitasse.
       As obras de Hélio Oiticica, como aponta Ernani José Brandão, podem ser vistas como uma constante inquietude do artista ao criar seu monstro artístico, sem qualquer compromisso com a racionalidade. Além do mais, o que é a arte além de arte? Muitas vezes um corpo vazio sem significados que encontra sua lógica nas curvas incertas do inconsciente. E as obras Oiticica, saem da monotonia das instalações tradicionais, aquelas fixadas em museus ou abreviações das amostras culturais, quando sua produção arte, um verdadeiro organismo, só consegue ter vida quando o espectador faz parte dela, mergulha no consciente das interrogações do artista, conseguindo por fim traduzir os primeiros sinais da apreensão poética. 
       As notas em observações sobre as mudanças de uma arte de vanguarda, lambidas pelo bom gosto, é essa deformidade apalpada pelas instabilidades e fissuras imagéticas do corpo do artista com o seu exterior. As projeções espectrais sobre as sombras sociológicas ficam por conta do desenvolvimento continuo da subjetividade underground, como categoria discursiva de múltiplas singularidades. É interessante perceber que apesar da geografia e o isolamento do Piauí, com os eixos de efervescências cultural Rio-São Paulo, não ficamos aparte do calor das construções subjetivas da arte, embora essas agitações chegassem de maneira retardatária. Notamos isso com Paulo José, quando discorre a curtinália teresinense. Há similitudes do seu pensamento a observações anteriores feitas sobre Hélio Oiticica.
         Teresina na década de 1970 contrasta com os sons da modernidade, ao mesmo tempo os verbetes de uma ditadura militar. É claro uma dicotomia entre os valores liberais com o conservadorismo de uma população altamente paternalista e provinciana. A sociedade civil se mostra anestesiada as construções ideológicas da época, com seus excessos de controle e ordem. No entanto, uma parcela da população não consegue diluir de maneira completa aos perfis sociais idealizados por um status quo das redes disciplinares. São eles, por exemplo, Edmar Oliveir, Durvalino Couto, Arnaldo Albuquerque, Torquato Neto, Carlos Galvão, entre outros rítmicos da contracultura, que inventam práticas e modos de sentir o mundo como a si mesmo. Reinventando ideias ou adquirindo novos valores sociais nas trocas conjuntas com diferentes sujeitos.
O segundo momento da dissertação intitula-se como Linha de Constituição das Transas Underground na Paisagem Geral da Curtinália Teresinense, onde o autor coloca o nanico Gramma no centro da constituição dos corpos juvenis. Apesar de sua atuação efêmera, posta em duas edições durante a década de 1972, o jornal tem forte teor ideológico, isso quando problematizado sua produção-linguagem e o ornamento visual da sua primeira edição, que se mostrou experimentalista em todos os aspectos. Desde o abuso da dição, que foi além de figurações verbais, ao exercício da sexualidade, em uma linguagem dos corpos altamente agressiva para um período que respirava a ditadura militar. 
           Uma duvida que surge no decorrer da leitura, é como o autor consegue problematizar de maneira tão ampla os artefatos da década de 1970, como o nanico Gramma, os suplementos dominicais, Boquitas Rouge, Hora Fatal, além da produção fílmica Miss Dora, dialogada o último com maiores detalhes nessa linha. Por mais interessante, revolucionaria e gaseificada os ares desses jovens que estavam por traz dessas produções, podemos questionar se há realmente um fundo ideológico problemático. Os editoriais, as pequenas publicações, acabam por desfalecer em alguns meses.  Entendemos que de fato havia restrições financeiras e limitações enquanto a divulgação, um exemplo, é o jornal o Gramma que teve todas as edições mimeografadas. O provincialismo de Teresina ajuda a perceber um pouco que os projetos juvenis tinham um caráter mais de divertimento, espécimes de gritos, a fim de provocar rebuliço social. A Transa de Curtição pode definir bem esse momento, ao ser caracterizada como um exercício de libertação e experimentação de espaços urbanos sem maiores comprometimentos com a lógica. As Transas underground fora de ser atos  libidinosas, são entendidas como a atualização dos significados de liberdade, experimentação, criação, e envolvimento dos corpos desses artistas com a urbe . E são definidas em três modalidades: Transas de Curtição, Resistência e Reacionária.
     A terceira  parte é linha de Constituição do Corpo – Linguagem - Subjetividade Underground a partir do conflito entre a Granfinália e a Marginália. A linha não apresenta tanta novidade enquanto abordagem, ao desenhar entendimentos do que é, os porquês de ser e, as definições que vão subjetivar esses anti-heróis da disciplina. Um livro pode ser considerado uma selva, onde ou você morre nas encruzilhadas linguísticas do autor ou sobrevive as ladeiras e precipícios ornamentais de palavras. E nesse jogo comparativo da selva, que a escrita de Ernani José Brandão se qualifica como a grande guia. Desde o inicio, a dissertação apresenta imagens. Essas que evidenciam um verdadeiro exercício de fixação, às vezes enfadonha, pois é bem recorrente as ênfases.
       A subjetividade underground nada mais é que a construção do jovem, com suas atitudes, emoções, anseio e demais advérbios que deslizam por matizes maniqueístas do existir. As manifestações são plurais, pois o entendimento de subjetivo abre diversas portas, entra por caminhos que confundem ao mesmo tempo em que lhe proporcionam respostas. Viver ultrapassa os limites do corpo e das necessidades vitais do organismo. Curtir, extrapolar, subverter, transar! Os jornais dominicais, juntamente com os curtas em super-8 são representações bem escrachadas das sensibilidades, como também reações a um capitalismo que monopolizava as mentes (criando o idealismo do consumo), de um estado que ditava as vivencias da população, a igreja com seu discurso moralista, além da escola que disciplina e polia homens as conjecturas sociais.
     O texto por ser escrito em primeira pessoa, acaba fazendo com que o leitor estreite seu pensamento a interpretações, pois a todo o momento esta sendo conduzido pelo autor a sua linha discursiva. De modo que ao trabalhar a subjetividade underground, o tema acaba sendo não tão subjetivo devido essa pessoalidade escriturística, que intervém e dar suas notas. Mas isso logo se quebra, quando a proposta lançada na introdução e considerações finais diverge as categorias interpretativas do leitor. A problemática lançada nos títulos e subtítulos não supre tanto a expectativa, quando são lançadas prioridades analíticas, pois a ressalva permeia em outra possibilidade. E é nesse momento que surge a tal subjetividade. A criação, as projeções imagéticas se multiplicam não apenas no campo da linguagem subjetivada do underground, mas na linha que discute e converge sua fala.


  BRANDÃO JÚNIOR, Ernani José. UM FORMIGUEIRO SOBRE A GRAMA: A produção histórica da subjetividade underground em Teresina-PI na década de 1970. 2011. 188f  Disertação (Mestrado em História do Brasil), - Universidade Federal do Piauí, Teresina, 2011.






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