sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Brasis da Literatura em Monteiro Lobato


       Alcântara Machado (2000) delineia que a literatura brasileira nos primeiros séculos esteve arraigada por um processo de superação, ocasionada pelo sentimento de inferioridade de um país novo, em face, a estabilidade étnica de velhos países. A formação ambígua de nossa cultura – um povo latino de herança colonial europeia, influenciada culturalmente pela mescla das três raças – cria um caráter de “constrangimento”, tingido pelo quadro natural do século XIX, marcado por debates de ideias de igualdade e noções racialistas, que paira como um desafio a sociedade, que encontra seus artifícios na idealização.

       Ainda no fim século XIX é possível perceber novas dialéticas que abordam a questão nacional, onde diferentes intelectuais, seja no campo literário ou burocrático, voltam-se para transformar a realidade. O esforço para tracejar novas linhas de legitimação foi vigorado com a decadência do Império – marcando assim, um período de indefinição e instabilidade –, onde “o estudo da realidade brasileira tem, pois, também, efeito de aliviar a angustia de homens naufragados entre o passado e o presente, a procura de um ponto fixo em que se apoiar” (SEVCENKO, 1985, p. 86).

       Há várias indagações no momento histórico em que a população brasileira ganha os primeiros contornos de nação, presente em diferentes áreas do conhecimento. Na história politica, Afonso Arino de Melo Franco, apresenta esse momento no terceiro século da colonização do Brasil, apontando que antes mesmo de conseguirmos o status de Estado, já era Nação. Onde o sentido da nacionalidade é acentuado pela definição territorial, formação da mentalidade luso-brasileira e o sentimento de independência politica, que inicia no período da mineração, sendo mais significativo que o próprio processo de independência. Temos no campo da critica literária, com Antônio Cândido (2000), que verifica o fator ter ocorrido no decorrer do século XVIII, quando a literatura foi tida pela articulação “autor-obra-público”.

       Lúcia Lippi (1990) faz um questionamento sobre a construção da nação, como são criados os símbolos de pertencimento, como reunir um aglomerado de indivíduos em uma coletividade e como definir ato pelo qual um povo é um povo. Da problemática, são esboçados dois enfoques: a cultura como fator que constrói a nação e aqueles que priorizam elementos políticos. Embora distintas, as duas ideias contem em si uma visão sobre o homem, como o individuo interagi em grupo e no meio social, sendo ambos, políticos e culturais. A primeira doutrina contrapõe a ideia de progresso, e institui o nacionalismo – construção simbólica do movimento de ideias e de ação – o dever de descobrir a continuidade cultura e reconstruir o passado. E a segunda, o nacionalismo politico, valoriza a ação do homem de Estado.

       Alberto Torres (1982) reafirma o posicionamento da segunda linha, esboçando que,
Só um fator, uma força, um instrumento, um órgão, uma vontade, uma inteligência, com a função de promover a ação nacional, de manter a vida do país, no que o interesse em conjunto e permanentemente: é o aparelho politico-administrativo, com seus vários órgãos. (TORRES, 1982, p. 117)
       Torres objeta uma cena caótica, onde a nação está em sina a desagregação, dominação por outro povo que se mostre politicamente forte e bem governado. No entanto, nota que o patriotismo territorial não é medida apenas pelo Estado, mas antes pela criação de um “senso nacional” entre sua gente, onde o arcabouço dos sistemas de distinções e conceitos, seja na filosofia, ciências, arte e politica, obtém real significado com os “nervos e sangue da nutrição e da vontade de um povo” (TORRES, 1982, p.29).
       No campo literário, há dois momentos decisivos na construção da identidade nacional, representavam fases culminantes do cosmopolitismo em sua época: o Romantismo (1836-1870) e o Modernismo (1922-1945). Ambas são inspiradas por modelos europeus, embora a primeira tenda a supera a influência portuguesa, se portando por uma fase de “rebeldia estereotipada”, como bem nota Alberto Torres (1982), afirmando a peculiaridade literária nos trópicos, escamoteado pelo fascínio e dependência. Enquanto a segunda verbera de maneira enérgica contra as raízes lusitanas, com “desrecalque” localista e assimilação da vanguarda europeia, que mergulham nas particularidades dos brasis, ora exprimindo a essência bruta do país, ora pesquisando formas novas em sentimentos ocultos.
       Temos no regionalismo, uma das tendências do modernismo, uma das principais vias de autodefinição da consciência local, onde o conto sertanejo terá grande receptividade, com José de Alencar, Bernardo Guimarães, Franklin Távora, Taunay. Além disso, o conto reflete “a pretexto do amor da terra, sua vocação cosmopolita, um meio de encarar com os olhos europeus a nossa realidade mais típica” (MACHADO, 2000, 113-114), versando o homem rural de forma pitoresca e irônica. Outra linha será o humor, um dos pontos altos que trará o folclore e a etnografia, juntamente com uma adesão dos “elementos recalcados” da nossa civilização – o negro, o mestiço, o filho do imigrante, a ingenuidade, a malandrice – com nomes de Oswald de Andrade, Raul Bopp, Mário de Andrade.
        Alcântara Machado (2000) aponta que o amadurecimento do ensaio histórico-sociológico, na obra de Gilberto Freyre (Casa Grande e Senzala), Sergio Buarque de Olanda (Raízes do Brasil), Caio Prado Junior (Formação do Brasil Contemporâneo) assinalam as várias vertentes de interpretação, no campo do ensaio, o traço mais característico e original do pensamento brasileiro. Ao ponto, que a sociologia antes de Euclides da Cunha (n’Os Sertões, obra gerida entre o campo literário e sociológico naturalista, com integração da analise cientificista) e Freyre, apareciam mais como ponto de vista do que pesquisa objetiva da realidade.
            O traço característico do Brasil tende a ser formado antes no interior do que no litoral, já que “as praias, os portos, as fronteiras, as cidades a beira-mar e cosmopolitas, os povos a margem das grandes vias de comunicação são, em toda parte, zonas mistas de difusão e desagregação social, áreas de invasão de costumes fáceis e de perversão dos caracteres” (TORRES, 1982, p.32). Monteiro Lobato observa que as serras onde moureja o homem, nos sertões onde o sertanejo vestido de couro vaqueja, nas cochilas onde se domam poldros, no campo “rechinantes” de carros de bois, nas catingas estorricadas pela seca, na palhoça de sapé e barro é o Brasil, frisando que nesses diferentes aspectos podem ser desenvolvidas obras afirmativas de nossa “individualidade racial”. Na problemática litoral/ sertão, veremos esse comparativo entre Rio-São Paulo, no que tange o embate de maior cidade cosmopolita e centro de irradiação cultural do país, e no processo de transformação histórica-social das duas cidades.
        Com o advento da república, o Rio de Janeiro se torna o centro politico do país e do cosmopolitismo, além de maior centro populacional, proporcionando um desenvolvimento econômico, dado a entrada de capital estrangeiro que intensificou os negócios, mudança da atividade de exportação para importação, além do comercio de cabotagem. Criam-se novas perspectivas, assim como um ensejo de ilusões e fantasias, dados pelo desenvolvimento econômico, social, politico, assinalados por um discurso progressista, civilizador e excludente. Os padrões da cultura brasileira são impressos e afunilados pelo caráter europeu, cabendo à imprensa disseminar, vigiar, repreender, polir os costumes e garantir sua manutenção. Já que “o importante agora é ser chic ou smart conforme a procedência do tecido ou do modelo” (SEVCENKO, 1985, p. 31).
       Enquanto isso, São Paulo ingressará no cenário cosmopolita, com o advento e a expansão da cultura do café, além do desenvolvimento de táticas que tendem a criar certa autonomia nas fronteiras estaduais – quando este gênero produtivo era base exportadora no Rio durante o século XX –, viabilizando uma estrutura ferroviária que crie um valor especulativo por uma única via. A acumulação de recursos e a oportunidades na indústria fazem um núcleo, até então periférico, ficar no “epicentro de uma entropia sempre crescente” (SEVCENKO, 1992, p. 108), onde a modernização tende a ser apresentada de modo caótico. Monteiro Lobato, expressa que “São Paulo é a vítima permanente dum estupro auditivo organizado em sistemas”.
      Lucia Lippi (1990) aponta que uma corrente do ideário modernista nega que o Rio de Janeiro seja o centro mais cosmopolita do país, criando argumentos que qualifiquem a cidade como Dionísica, dificilmente associado a “salvação nacional”, de certo, é até controladas por comerciantes corruptos e portugueses. São Paulo aparecerá como um contra-argumento, sendo o interior, é neutro das influências que deturpam os caracteres nacionais – com politicas e moda importada –. Os modernistas paulistas reconstrói o país em um mito, retornando ao primitivismo (inspirados nas vanguardas europeias) de modo mais enérgico do que o sertanismo.
       A concepção de arte por Graça Aranha é reveladora para a construção das insígnias nacionais, logo, a naturalização do seu campo poético, seja na tradição, musicalidade ou folclore, aglutinam um nova chama no espirito brasileiro, que “(...) vive (...) no terror cósmico de que a imitação da natureza e a subordinação a esta são significativas expressões. Somos os líricos da tristeza, porque ainda não vencemos a natureza, vivemos esmagados, saudosos, apavorados” (OLIVEIRA, 1990, p. 181). Monteiro Lobato, em Idéias de Jeca Tatu, reúnem uma série de 35 artigos, publicados aleatoriamente na imprensa paulista, que refletem a problemática da identidade nacional, denunciando o “Pensionato Artístico” do Governo, o ecletismo de estilos que verberam novas formas urbanas de ajardinamento, a falta de originalidade dos nossos artistas modernos em imitar o esteticismo europeu, onde o futurismo, cubismo, impressionismo e “tutti quanti” é uma extensão da caricatura que não visa ressaltar uma ideia, mas desnortear, aparvalhar, aturdir a honestidade do espectador. Pois considera essa arte moderna a suprema justificação de qualquer borracheiro.
        Monteiro Lobato (2008) verbera que “em nada se estampa melhor a alma de uma nação do que na obra de seus caricaturistas. Parece que o modo de pensar coletivo tem seu resumo nessa forma de riso”.  A apropriação do gênero humorístico, embora se expresse inicialmente por um simples motejo, ganha sua complexidade quando, ao expor o ridículo e formas vexatórias, sobre a transitoriedade administrativa portuguesa ao Brasil, por exemplo, irá compor uma parte o grande painel que foi a sociedade colonial, e bem mais do que isso, registrar um novo ciclo academicista, que evite a impressão dos clichês artísticos da Europa, expressa a seguir:
(...) O Estado, esse monstro de truculenta onipotência, pirâmide com esbirros e meirinhos na base e um rei no topo, desmanchando em peças, desparafusado, a enjoar, como qualquer embarcadiço de primeira viagem, dentro de brigues e fragatas comboios por navios de guerra ingleses...

(...) A Soberania Nacional, coitadinha, desembarcou numa padiola.

(...) Uma arrebidata corte de Velho Mundo armado tenda no pátio de uma colônia correcional, entre rumas de pau-brasil e caixas de açúcar.
(...) Atrás vem uma megera a desatar o nó de uma venda que tem nos olhos e a mancar dos quartos. Seguem-na molecotes carregando uma balança de fiel entortado por um tranco. A Justiça? (LOBATO, 2008, p.31)
       Nos primeiros anos da Republicas, a caricatura irá ganhar um espeço significativo nas gazetas, onde a predisposição da nova “massa brasileira”, encontrar nessas representações visuais a transmissão do fato de maneira mais concreta. Cria-se uma pedagogia, que transmite/ educa/ e molda os corpos sociais, tanto na imprensa carioca como na paulista. É pertinente lembrar, que a mudança do regime politico brasileiro, sobrevém uma nova forma de se fazer jornalismo, onde o jornal deixava de ser um produto artesanal para assumir um caráter empresarial. Além de consonarem mudanças enquanto seu gênero, os jornais deixam de ser um veiculo meramente informativo para passar a opinar, direcionar suas notas, abrir um espaço que brevemente vai convergir seu discurso no quarto poder.
       No Brasil não havia um grupo fervoroso que consumisse leitura, eram alarmantes os índices de analfabetismo, principalmente após o fim da escravidão negra, quando estes foram categorizados de cidadãos pelo regime democrático republicano. Mas o que se observava era um desdobramento crescente na quantidade de exemplares. Seria ilógico e até um perigo ao próprio capital da empresa, se o Estado não estivesse configurado como o grande baluarte.
       O próprio caráter volátil do novo regime, criar uma série de restrições sobre a publicidade de ideias. Em 1889 cria-se uma junta para julgar conspirações que venham aparecer contra o governo e o regime. E no ano seguinte se institui um decreto similar ao primeiro, mas direcionado a regulamentação da imprensa, criando uma lei de liberdade de expressão, embora punisse os veículos que agredisse de forma anônima a República. Monteiro Lobato pontua que “sem liberdade da mais ampla a caricatura fenece como a gramínea que tem sobre si um tijolo. Perde a clorofila. Descora. Da uma esparguinho branco”.
       Em Crianções de Estilo, questiona-se como seria a dinâmica esplendorosa de um liceu de artes no país, que desenvolva a lucides artística, quando se tem no Rio de janeiro, uma “cidade plasmada pelas manoplas calosas dum mestre-de-obras que, sendo legião, é um só, tão uniformemente imprimiu tudo o que cunho mazorral da sua pouca finura em arte”. Lobato ao explanar uma caça as insígnias nacionais, apresenta que no lar britânico esse dilema se processou na formação de uma moldura natural que dissociar-se a sua “psíquica fleumática de pirata enriquecido”, outro, seria a ambiência externa da casa holandesa, observados a originalidade regional na arquitetura do telhado aos utensílios domésticos. E no Brasil? Ironicamente recriar que o “objeto de cor local, coisa nossa, promanada naturalmente da terra, só o coronel, o doutor ou o amanuense – senhores meninos daquele presepe”.
        A intensão da semeadura da arte em um liceu é marcado por um processo determinista – entre o homem e seu monstro artístico – onde o contato das sensibilidades aos causos simples, principalmente quando este é um anônimo, irradiará um futuro menos incaracterístico do que o “presente macacal”, sendo Ramos de Azevedo, João Pernambuco, Wasth Rodrigues, Almeida Junior, Ricardo Gonçalves, um dos exemplos dos nossos “homens-bandeiras”, que soube transplantar a influencia estética das “velhas igrejas” com toques típicos e originais. Embora Lobato critique a copia de estilos, não é contra sua apropriação, desde que seja apenas como inspiração para articular novas formas de sentir. Essa auto caracterização do primitivismo, de sermos “peludos” e “macacos” – e reconhecidos como tais pelo francês, o inglês, o alemão, o italiano, o japonês, o planeta Marte, a constelação de Hércules as nebulosas –, cria uma acides e um inóspito perfil do brasileiro, pretenso de autonomia, que nos tons de uma tragédia grega não passa de um teatro malogrado por um jogo de expressões forjadas. Por conseguinte, Lobato questiona-se sobre darwinismo social, apontando que “o inglês pôs o macaco no começo da evolução: vocês (povo brasileiro) provaram que ele acertaria melhor pondo-o no fim. Au revoir!”
     O Brasil é rico em linhas temáticas, virgens, inexploradas e conhecido de forma fragmentada, quando não rejeitado, pois até certo ponto, a cultura de massa foi tida como a chagas do cosmopolitismo. O Folclore é a ponto de ressalva nesse campo temático, proporcionando uma dialética que busca no mito a construção das raízes nacionais, são estes: ninfas; Iara, a Mãe-d’Água; Marabá; caipora; boitatás etc. Monteiro Lobato criar conceitos que subjetiva o próprio sentido da arte, mas sempre na seriação naturalista/ e presente-histórico, definindo que “nosso estilo deve ser o decorrente natural do estilo com que os avós nos dotaram. Sempre vivo, sempre em função do meio, se quer fugir a precha de rastaquerismo deve retomar a linha do passado e desenvolvê-la a luz da estesia moderna” (LOBATO, 2008, p. 50), procurando reinventar a si mesmo, na “seiva da tradição”.
              
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REFERÊNCIA:
CANDIDO, Antônio Candido. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: T. A. Queiroz, 2000.
LOBATO, Monteiro. Idéias de Jeca Tatu. São Paulo: Globo, 2008.
OLIVEIRA, Lúcia Lippi. A questão nacional na primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1990.
PAZ, Francisco Moraes. Na poética da historia a realização da utopia nacional oitocentisca. Curitiba: Ed. Da UFPR, 1996.
SEVCENKO, Nicolau. Orfeu estático na metrópole: São Paulo, sociedade e cultura frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1985.
TORRES, Alberto. O problema nacional brasileiro: introdução a um prograam de organizações nacional. São Paulo: Nacional; Brasília: Ed. Universidade de Brasilia, 1982.

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