1.1
Por meio de crises e oscilações a arqueologia formou sua base. A variedade teoria, as linhas discursivas que entrelaçam, se condensam, tendem por fim, a sistematizar um saber cientifico. E bem mais do que isso, legitimar-se, não apenas como um estudo das sociedades antigas e do homem, desenhadas pelos vestígios materiais, mas produtora de saber perante as ciências humanas.As definições como ciência surgiriam ao longo do tempo, na medida em que se avançava nas sistematizações teóricas. Em uma primeira observação, o método positivista esteve em grande voga. Os fatos arqueológicos eram interpretados como simples e acabado. Entendemos isso, quando na arqueologia pré-histórica, se utilizou do método comparativo, para fazer analogia de vestígios antigos com traços da contemporaneidade. Ocasionando por vez certa miopia no campo das interpretações.Uma das considerações dar arqueologia é o seu caráter múltiplo, a polarização do saber nas linhas da interdisciplinaridade. O feixe dialético que se cria nessa perspectiva, tende a adoçar conceitualmente sua matriz teórica, e uma das observações que devem permanecer no imaginário desses pesquisadores, é a capacidade de dissolver os aspectos gerais dos fatos a pequenas casualidades, isto é, evitar a preponderância dos recortes de analise, como a ecológico ou social, no reducionismo problemático das relações que constituem grupos humanos.É por meio das escavações que se molda o espirito cientifico. O etapismo das relações humanas tende a aguçar o espirito desbravador. Como agiam? Como se organizavam? O que pensavam? E as ternas inquietações, afinal, quem é o homem? São questões fundamentais que surgem à procura de respostas, e alguns casos, acabam obscurecidas pelo tempo, onde as marcas da subjetividade incitam apenas os talvez e os vários caminhos a essa verdadeira esfinge histórica.A criação de uma sistemática teórica na arqueologia não visa apenas dar luz a determinadas conjunturas social, mas tornar inteligível o conhecimento. Não só para o pesquisador em arqueologia, mas aventureiros que debrucem curiosidades sobre a mesma. Os estudos da arqueologia-antropológica acabam por se tornam basilares nesse sentido. Quando os estudos dos sinais matérias polarizam para si o conceito de cultura, em múltiplas e singularidades.A incorporação da antropologia nos estudos arqueológicos acaba por ossificar mais uma estrutura teórica, ou se não, criar um lapso movediço nas interpretações, capazes de esboçar portas a sua gênese metodológica. O empirismo ganha um novo gás, se assim podemos dizer, ao laçar considerações a dados etnográficos. O estudo do material lítico, da cerâmica, das atividades fúnebres, da organicidade dos aldeamentos, se tornam reveladores. Além do mais, quando a antropologia se apropria dos vestígios matérias é capaz de mapear as visões de mundo de determinadas sociedades, criando um pano de fundo nas interpretações materiais, já que em um primeiro momento não é possível delinear esse tipo de considerações.A utilização do conceito de cultura acaba por abrir novas cisões no estudo das ciências humanas, e em particular nas ciências arqueológica. Isso ocorre quando se entende minimamente que há uma complexidade em diferentes culturas, e que todas independentemente de seu grau de organização, guardam traços peculiares que distinguem e as que definam como plurais.Lembrando um pouco de um conceito do antropólogo Roberto da Matta, que é preciso “transformar o exótico em familiar e o familiar em exótico”. De maneira simples, podemos pensar esse conceito nas questões teóricas e metodológicas, onde o novo se apresentaria como o exótico. Nisso, é preciso primeiramente se questionar da validade dos conceitos, postos então como antigos quando insurge novos posicionamentos metodológicos, se ainda satisfazem se conseguem dar conta das imbricações problemáticas no momento das interpretações, que insurgem a cada novo ciclo de descobertas.Uma das abreviações da arqueologia é o seu caráter acumulativo, onde as interpretações dos fatos se davam de maneira linear. Uma questão de certa forma batida, se pensar nos intercursos, nas fissuras custeadas pelas rupturas e continuidades histórico-sociais. Quando lembramos um dos fundamentos de cultura, de complexidade e heterogeneidade, não é fácil aceitar essa linearidade, logo porque esse tipo de observação tacha uma padronização nas sociedades, fundamentando o etapismo entre elas.A interpretação arqueológica tem por fim criar um panorama da sociedade, com seu funcionamento, as ações dos grupos humanos, e criar notas sobre as mudanças no percurso temporal dos indivíduos. E notar por meio de diferentes forças externas, internas, ou casualidades do tempo, a possibilidade de surgir novos atributos sociais aos sujeitos, no divã das mudanças.
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Por estudar a cultura material, a arqueologia se depara constantemente com obstáculos de datação, distanciamento entre uma ocupação ou ausência, e reconstrução sociológica, dado sua prospecção. Uma complexidade que não se limita a serie de escavações, mas agi com processamento de materiais em laboratórios e gabinete, assim como na comparação dos registros encontrados com outras áreas ou sítios da mesma região ou cultura.
O trabalho arqueológico é geralmente sistematizado em quatro fases: etapas de campo, processamento em laboratórios, estudo e publicação. Uma das questões centrais no trabalho material é dada pela classificação tipológica. É pertinente lembrar, que antes do profissional se debruçar em campo, já tem em mente seu objeto de pesquisa, geralmente ocasionado por prospecções iniciais da região.Robert Etienne pondera que a tipologia não é simples objeto de pesquisa arqueológica, mas um instrumento de ordenação sincrônica e diacrônica do material, que visa reconstruir estruturas e seriar as transformações do artefato. Logo, a questão mais importante dessa analise se refere às modificações temporais do artefato, encarada pelos arqueólogos como processo endógeno de desdobramento, que depende de certos objetos de classificação, sendo eles: a função externa e a composição material.A reconstrução de sequências artefatuas diacrônicas, padrões de consumo e de ocupação, só seriam possível com o desenvolvimento de estudos da tipologia arqueológica. São casos desse tipo, que tende a criar um grau de complexidade dentro da arqueologia, de modo que não seja encarada como uma simples técnica ou prática de escavação. Não obstante, o amadurecimento dessas técnicas proporcionam um aprofundamento, tanto na pesquisa, quanto no desenvolvimento de reflexões metodológicas e teórica.No Brasil, o isolamento científico e a identidade cultural subordinada a modelos externos, irá determinar as feições de nossa arqueologia, como aferi Pedro Funari (1988). A falta de investimento tecnológico em pesquisa cientifica, tende a criar um elo de dependência aos centros mais cosmopolitas. Dependência instalada principalmente no inicio do século XX com o advento da República, onde os padrões da cultura brasileira foram afunilados pelos padrões europeus.Uma das consequências dessa valorização externa, se dar com a destruição da memoria nativa, onde a escavação dos sítios pré-historicos das comunidades indígenas não nutri interesse dos governantes, assim como de diferentes segmentos sociais. O que ocasiona uma debilidade no ensino em arqueologia no Brasil, perceptível nas técnicas de escavação dos pesquisadores, que são de matrizes norte-americanas e da arqueologia pré-histórica francesa, influenciado pelos trabalhos de André Lerou Gourhan.O reflexo mais caro sobre esse descaso publico, e talvez uma das primeiras iniciativas sobre a valorização patrimonial da cultura nacional, é o pedido da equipe de cooperação cientifica franco-brasileira, que em 1978 solicita ao governo federal a criação de uma unidade de conservação – o Parque Nacional Serra da Capivara –, que vise a preservação de sítios de arte rupestre. Mas afinal, o que é esse patrimônio cultural?Anteriormente entendido nas limitações de identidades sociais, durante o século XVIII e XIX, seu conceito esteve atrelado na representação indenitária dos Estados-nações. Outrora, a ideia de patrimônio foi sendo re-significda, principalmente no que tange as criticas ao nacionalismo, surgindo novos apelas pelo patrimônio, que não se volte a predileção, mas antes ao caráter excepcional, isto é, apelos pelo patrimônio da humanidade, que não se restrinjam a unilateralidade de abstraçõesO resultado disso, foi que a partir de novembro de 1945, a Unesco passa a promover reflexões sobre estratégias pacificas de desenvolvimento, principalmente nas áreas da Ciências Naturais, Humanas e Sociais, da Cultura, da Comunicação, da Educação e da Informação. Um dos objetivos dessa organização é promover debates, a partir de mobilizações de diferentes países, a cerca dos problemas capitais em relação as sociedades humanas.A documentação produzida nas conferencias realizadas pela Unesco se tornaram instrumentos de grande influencia nas politicas públicas de cultura, normatizando legislações que criem medidas concretas, que tendem a ser adotadas por vários países. A Carta de Haia, assinada em maio de 1954, se apresenta como um dos maiores exemplos dessa empreitada, ao propor medidas de proteção de bens culturais na ocorrência de conflitos armados durante a Guerra Fria. E assim, pela ação conjunta da Unesco e demais organizações envolvidas na defesa do patrimônio cultural teve um grande avanço adquirido pela Convenção do Patrimônio Mundial, em 1972.O Parque Nacional da Serra da Capivara foi declarado pela Unesco, em função do acervo arqueológico ali encontrados, com cerca de 460 sitios cadastrado e com a mais antiga datação que atesta a presença do homem a mais de 48mil anos atrás. A Fundação museu, nasceu da iniciativa de combater a presença de posseiros, a caça ilegal e o desmatamento de espécie tidas como nobres. Sua gestão é dado pelo regime de parcerias entre o IBAMA e Fumdham, onde a segunda, juntamente com o Iphan, regem os trabalhos de conservação e defesa dos sítios. Com auxilio do Branco Interamericano de Desenvolvimento, e parceria dos governos da Franca e Itália, foram sistematizados estudos para definir as atividades econômicas rentáveis na região, sendo o turismo uma via de mão dupla, ao proporcionar a preservação patrimonial concomitantemente ao desenvolvimento socioeconômico comunitário.Para criar uma infra-estrutura interna no parque, com ampliação de uma politica auto-sustentável, de cuidados ao meio ambiente, desenvolvimento de uma polo turístico, assim como a ampliação de uma rede de acessão a região e sistemas de hotelaria. O primeiro passo foi o investimento pessoal na comunidade, que inclui o desenvolvimento de programas de saúde, planejamento familiar e educacional, onde o ultimo visa a formação básica dos moradores do entorno do parque e localidades vizinhas.No Parque Nacional encontra-se uma diversidade de biomas e ecossistemas, dados a caráter fronteristico entre duas formações geológicas, a planície pré-cambriana da depressão periférica do rio São Francisco e a bacia sedimentar Piauí-Maranhão, a bacia do Parnaíba. Separadas por cuesta – onde paredões e vales interiores encontram-se sítios arqueológicos que guardam registros gráficos pré-históricos, pinturas e gravura –, faz parte do domínio climático da caatinga e sertão semi-árido do Polígono da Seca. Além disso, essas zonas de fronteiras comprovam a hipótese que o desenvolvimento cultural pré-histórico foi possível, antes da chegada do colono branco.Valorização, Preservação e continuidade, de maneira simplória, são esses o intuito da pesquisa em arqueologia, e ação de Niède Guidon é basilar no desenvolvimento destes conceitos. Primeiramente pela valorização do acervo mais completo de estratigrafia nas Américas, no sítio Toca do Boqueirão da Pedra Furada. No sentido da preservação, pela significância de sua catalogação pela Unesco na lista do Patrimônio Mundial a título cultural (1991) e Tombado como Patrimônio Nacional pelo Iphan (1993), sendo alvo constante de ameaça ambiental pela caça predatória. E por fim, continuidade na luta pela proteção ao meio ambiente, com sua preservação cultural, desenvolvimento socioeconômico na região por meio do patrimônio e desenvolvimento de pesquisas multidisciplinares.
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REFERÊNCIA
FUNARI, Pedro Paulo Abreu; PELEGRINI, Sandra de Cássia Araújo. Patrimônio Histórico e Cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Arqueologia. São Paulo: Editora Ática, 1988. Texto: Niêde Guidon. Parque nacional Serra da Capivara: apelo de preservação/ patrimônio arqueológico americano.
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